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Violência contra a mulher é sinal de enfraquecimento da cultura em geral

Phumzile Mlambo-Ngcuka, Directora Executiva da ONU-Mulher e Secretária Geral Adjunta da ON - AP

26/11/2017 16:00

Sábado, 25 de Novembro, foi Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres. Mas o assunto não acaba aí. A ONU lançou a campanha “16 dias de activismo” que vai durar até ao próximo dia 10 de Dezembro. Não é a primeira vez que se faz isso. "16 dias de activismo" foi lançada em 1991 pelo Instituto Internacional pela Liderança Feminina e cada ano focaliza num aspecto particular. Este ano o foco é “Todos Unidos sobre o tema “Não deixar ninguém de lado: pôr termo á violência contra mulheres e crianças”. E isto tendo em conta primeiramente as pessoas mais desfavorecidas e marginalizadas, incluindo refugiados, migrantes, minorias, povos autóctones, populações afectadas por conflitos, catástrofes naturais, etc.

A cor laranja foi escolhida para chamar a atenção sobre a campanha. Edifícios e monumentos serão iluminados e decorados com a cor laranja para chamar a atenção do mundo sobre a questão da violência contra as mulheres e meninas.

Na sua mensagem para o dia 25 de Novembro, o Secretário Geral da ONU, António Guterres, disse que no mundo mais de um terço das mulheres já passaram por violências físicas e sexuais no decurso da sua vida; 750 milhões de mulheres tiveram de se casar antes dos 18 anos, e mais de 250 milhões passaram por mutilações genitais.

As militantes dos direitos das mulheres são tomadas como alvo em proporções alarmantes e a violência contra personalidades politicas femininas entrava o progresso dos direitos civis, sociais, políticos, económicos e culturais das mulheres.

É largamente aceite que todas essas formas de violência contra a mulher  comprometem a participação da mulher na perenização da paz social. Se a violência contra as mulheres não for combatida não se poderá chegar nunca a uma boa concretização do Programa de Desenvolvimento Durável 2030.

Guterres apela por isso, a reforçar as acções e dá alguns exemplos de iniciativas já em acto, como a estratégia “tolerância zero ao assédio sexual” nas organizações, lançada em Setembro; a iniciativa mundial “Cidades seguras e espaços públicos seguros” , ou ainda a campanha “Todos unidos daqui até 2030”.

Ele concluiu que é chegado o momento de agir conjuntamente a fim de que as mulheres e meninas do mundo inteiro possam viver livres de assédio sexual, das práticas tradicionais nefastas e de todas as outras formas de violência.

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Por seu lado Phumzile Mlambo-Ngcuka, Secretária Geral Adjunta da ONU e Directora Executiva da ONU Mulheres emitiu esta mensagem vídeo através do site da ONU:

É um direito de todas as mulheres e meninas s viver sem violência. No entanto a violência existe em todas as comunidades e a todo os níveis. Acontece em casa, comunidades, pelas mãos de pessoas amadas, autoridades que nos deveriam proteger, estrangeiros, instituições, empregadores estatais que provêm ao nosso pão quotidiano.

 Acontece on line, como jogo nas redes sociais, os telemóveis… criam novas oportunidades de abusos.

A violência sexual é amplamente difusa e assim tem sido desde longa data. As milhões de pessoas que twitaram “eu também”  através do mundo, mostra que todos tem um papel a desenvolver na condenação do estupro e a violência.

Temos de combater a violência baseada no género em todo o lado. Muitas das pessoas afectadas pela violência são meninas, pessoas marginalizadas, anciãs, adolescentes, refugiados, indígenas, deficientes…

Temos de tomar medidas para prevenir a violência e, ao mesmo tempo estar preparados para responder, quando a violência já ocorreu, com serviços adequados às vítimas.

A violência contra mulheres e meninas não é inevitável"

"Para chegar a 0% tolerância – diz uma voz masculina no spot da ONU - tens de ser 100% responsável. Como parte disto apelamos os homens a reconhecerem a realidade do sexismo e domínio masculino e a denunciar".

E uma voz feminina recorda as diversas formas de actuar contra a violência contra mulheres e meninas:

       - Prevenção – educar as crianças desde pequenas à não violência

       - Participação – todos devemos falar contra essas formas de violência

       - Protecção – fazer aprovar leis contra a violência

       - Prover  serviços de qualidade contra para as sobreviventes

       - Promover a paz

Não deixar ninguém de lado, concluiu Phumzile, significa que é preciso planificar soluções para eliminar a violência em parceria com as mulheres e meninas que antes eram ignoradas e pastas de lado ou excluídas, restabelecer os direitos humanos e a dignidade.

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Entrevista pela Rádio Vaticano acerca da violência contra as mulheres, D. Vincenzo Paglia, chanceler do Instituto Pontifício João Paulo II para os Estudos do Matrimonio e Família disse:

 “Eu creio que, infelizmente, contra esta crescente violência contra as mulheres, nós estamos a pagar o preço de uma indiferença global, excepto em relação ao “si próprio”.

Por isso, criar momentos de reflexão sobre isto é mais que oportuno, até porque, a meu ver, a violência contra as mulheres é uma das manifestações do enfraquecimento da cultura em geral. Não é um evento que acontece por acaso; aliás, hoje também na opinião publica, há escândalos relativos a Holliwood, a Walt Disney, e assim por diante.

Creio que seja indispensável para todos, para a Igreja e para a cultura civil, repensar o tema da violência contra as mulheres num horizonte mais amplo. Não podemos exigir apenas um toco de boa vontade; há um problema cultural e, a meu ver, devemos voltar todos a reflectir sobre a diferença radical e a igualdade entre o homem e a mulher para compreender de novo aquela aliança originária entre o homem e a mulher aos quais Deus confiou a custódia da Criação e a responsabilidade das gerações.

Devemos reflectir com mais profundidade sobre o risco de esquecer a diferença procurando, possivelmente, o neutro ou então individuar uma igualdade incolor. Eis porque a meu ver, há necessidade de o homem voltar a compreender a indispensabilidade do outro que, inicialmente é a mulher… e vice-versa.”

- Mas, na Itália, a maior parte dos casos de violência contra a mulher tem como autor o parceiro que o faz supostamente por amor, não é por se ignorar a diferença. O que faz a Igreja católica para proteger as vítimas e prevenir esses crimes?

Mas o não reconhecimento da diferença significa que há uma espécie de egolatria, o culto do eu, de um amor romantizado, sentimental, pelo que o que conta sou portanto eu e, no altar do eu, se sacrificam também os afectos mais importantes, incluindo os mais próximos, aliás, são talvez as primeiras vítimas. Neste sentido a recuperação da diferença quer dizer impossibilidade de reduzir a realidade a si mesmos. Este é o nó que hoje está ainda pouco desatado, mesmo no seio do pensamento normal tanto de quem crê, como de quem segue a laicidade. Devemos ir um pouco mais além do masculinismo e do feminismo, isto é, devemos fundar uma nova cultura porque creio que, de certo modo, já chegamos à última paragem e há uma certa dificuldade no votar a partir de novo para edificar um mundo, onde a diferença não signifique inimizade, mas riqueza; onde a presença do outro não signifique um perigo, mas uma oportunidade. Isto vale a nível global, a nível da família, a nível das grandes cidades, a nível da desigualdade planetária, a nível também da política: a redução do real a si próprio; o individuo se sente único. Isto, na minha opinião, é um problema de recuperação de uma cultura que deve prever – esta é a minha convicção - uma nova aliança, porque quando as coias vão bem entre o homem e a mulher, vai bem a História, a sociedade. Se as coisas vão mal, quer dizer que a História deve mudar de orientação.

(DA)

26/11/2017 16:00