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A coragem de sujar as mãos para pregar o Reino de Deus

Papa Francisco na Capela da Casa Santa Marta

06/11/2017 10:08

O Papa Francisco na sua homilia de terça-feira dia 31 de outubro na Capela da Casa de Santa Marta, referiu-se às palavras de Jesus sobre o grão de mostarda e o fermento e sublinhou que o Reino de Deus “cresce a partir de dentro, com a força do Espírito Santo”.

E para tal é preciso não ter a “ilusão” de não ser preciso “sujar as mãos” para pregar o Reino de Deus – disse o Santo Padre que recusou uma “pastoral de conservação”.

Neste “Sal da Terra, Luz do Mundo” registamos as palavras do Santo Padre e recordamos outras homilias em Santa Marta nas quais Francisco exorta os católicos a viverem o concreto da vida, no meio do mundo, numa atitude de serviço.

A força do fermento e do grão de mostarda

Na sua homilia, na terça-feira dia 31 de outubro, Francisco salientou os elementos propostos pelo capítulo 13 do Evangelho de S. Lucas, o grão de mostarda e o fermento, e considerou-os pequenos mas poderosos pois têm uma força e “uma potência” que faz crescer.

O Santo Padre referiu-se também à leitura de S. Paulo na Carta aos Romanos proposta pela liturgia daquele dia e que refere os sofrimentos da vida. Segundo o Papa, não obstante as tensões e sofrimentos, a esperança leva-nos à glória de Deus, à plenitude:

“É justamente a esperança que nos leva à plenitude, a esperança de sair desta prisão, desta limitação, desta escravidão, desta corrupção e chegar à glória: um caminho de esperança. E a esperança é um dom do Espírito. É propriamente o Espírito Santo que está dentro de nós e leva a isso: a algo grandioso, a uma libertação, a uma grande glória. E para  isso Jesus diz: ‘Dentro da semente de mostarda, daquele grão pequenino, há uma força que desencadeia um crescimento inimaginável’” – disse o Santo Padre.

Lançar e misturar pelo Reino de Deus

Viver em esperança – assinalou o Papa – é crescer “a partir de dentro, com a força do Espírito Santo”, renunciando a uma “pastoral de conservação”:

“Cresce a partir de dentro, com a força do Espírito Santo. E sempre a Igreja teve, seja a coragem de pegar e lançar, de pegar e misturar, seja  também o medo de fazê-lo. E muitas vezes nós vemos que se prefere uma pastoral de conservação e não de deixar que o Reino cresça: 'vamos permanecer aquilo que somos, pequeninos, ali, estamos seguros…' E o Reino não cresce. Para que o Reino cresça é preciso coragem: de lançar o grão, de misturar o fermento” – disse o Santo Padre.

Para o Reino de Deus crescer, Francisco recusa a função de “guardiões de museus” mas propõe aquela de gente que quer “lançar” e “misturar”, sujando as mãos pelo Reino de Deus:

“Ai daqueles que pregam o Reino de Deus com a ilusão de não sujar as mãos. Estes são guardiões de museus: preferem as coisas belas, e não este gesto de lançar para que a força se desencadeie, de misturar para que a força faça crescer. Esta é a mensagem de Jesus e de Paulo: esta tensão que vai da escravidão do pecado, para ser simples, à plenitude da glória. E a esperança é aquela que vai em frente, a esperança não desilude: porque a esperança é muito pequena, a esperança é tão pequena quanto o grão e o fermento” – declarou o Papa.

No final da sua homilia, Francisco lançou uma pista de reflexão aos fiéis presentes na Eucaristia: “acreditamos que na esperança está o Espírito Santo com o qual podemos falar?”

O Papa Francisco nas suas homilias em Santa Marta tem exortado por diversas vezes os católicos, e os sacerdotes em particular, a viverem o concreto da vida, no meio do mundo, numa atitude de serviço. Recordemos três homilias de Francisco como exemplo destas preocupações do Santo Padre.

O Senhor ensina o caminho do fazer

Na terça-feira, dia 23 de fevereiro de 2016 o Papa afirmou que o cristianismo é uma religião concreta, que age fazendo o bem, e não uma “religião do dizer” feita de hipocrisia e vaidade.

Cruzando a leitura do profeta Isaías com a passagem do Evangelho de S. Mateus, propostas pela liturgia do dia, o Santo Padre abordou a “dialética evangélica entre dizer e fazer”. Francisco enfatizou a hipocrisia dos escribas e fariseus apresentando as palavras de Jesus: “não imiteis as suas obras, pois eles dizem e não fazem”:

“O Senhor ensina-nos o caminho do fazer. E quantas vezes encontramos pessoas, tantas vezes na Igreja: ‘Sou muito católica’. ‘Mas o que fazes?’ Quantos pais dizem que são católicos, mas nunca têm tempo para conversar com os seus filhos, para brincar com os seus filhos, para ouvir os seus filhos. Se calhar têm os pais numa casa de repouso, mas estão sempre ocupados e não podem ir visitá-los e deixam-nos abandonados! ‘Mas sou muito católico e pertenço àquela associação’. Esta é a religião do dizer: eu digo que sou assim, mas faço a mundanidade.”

Nas palavras do Papa o profeta Isaías indica o que agrada a Deus: “Cessem de fazer o mal, aprendei a fazer o bem.” “Aliviar os oprimidos, fazer justiça ao órfão, defender a causa da viúva.”E fala ainda da infinita misericórdia de Deus.

Na sua homilia o Santo Padre citou o capítulo do Evangelho de Mateus sobre o juízo final, quando Deus pedirá contas ao homem pelo que ele fez pelos famintos, os sedentos, os encarcerados, os estrangeiros. “Esta” - declarou Francisco – “é a vida cristã”.

“Que o Senhor nos dê esta sabedoria de entender onde está a diferença entre o dizer e o fazer, e nos ensine o caminho do fazer e nos ajude a ir nesse caminho, porque o caminho do dizer leva-nos ao lugar onde estavam os doutores da lei, os clérigos, que gostavam de vestir-se e serem como se fossem uma majestade. E isto não é a realidade do Evangelho! Que o Senhor nos ensine este caminho” – disse o Papa na conclusão da sua homilia.

Dinheiro e poder sujam a Igreja

Na terça-feira dia 17 de maio de 2016, na Missa em Santa Marta o Papa Francisco afirmou que o dinheiro e o poder sujam a Igreja. O Santo Padre disse que o caminho que Jesus indica é o serviço, mas com frequência na Igreja buscam-se poder, dinheiro e vaidade.

Partindo da passagem do Evangelho de S. Marcos, proposta pela liturgia do dia na qual os discípulos se perguntavam entre si quem era o maior entre eles, o Papa afirmou que estas tentações mundanas comprometem também hoje o testemunho da Igreja:

“No caminho que Jesus nos indica, o serviço é a regra. O maior é aquele que serve mais, quem está mais ao serviço dos outros, e não aquele que se vangloria, que busca o poder, o dinheiro...a vaidade, o orgulho… Não, esses não são os maiores. E o que aconteceu aqui com os apóstolos, inclusive com a mãe de João e Tiago, é uma história que acontece todos os dias na Igreja, em cada comunidade. ‘Mas entre nós, quem é o maior? Quem comanda?’ As ambições…Em cada comunidade – nas paróquias ou nas instituições – sempre existe esta vontade de galgar, de ter poder.”

Na sua homilia o Papa Francisco sublinhou que a vontade mundana de estar com o poder acontece nas paróquias, nos colégios e também nos episcopados, uma atitude que não é a atitude de Jesus que veio para servir e ensina o serviço e a humildade. Mas todos somos tentados pelas atitudes de poder e de vaidade – afirmou o Papa que pediu ao Senhor para que nos ilumine para entendermos que o espírito mundano é inimigo de Deus:

“Todos nós somos tentados por estas coisas, somos tentados a destruir o outro para subir mais. É uma tentação mundana, mas que divide e destrói a Igreja, não é o Espírito de Jesus. É belo, imaginemos a cena: Jesus que diz estas palavras e os discípulos que dizem ‘não, é melhor não perguntar muito, vamos em frente’, e os discípulos que preferem discutir entre si qual deles será o maior. Vai-nos fazer bem pensar nas muitas vezes que nós vimos isto na Igreja e nas muitas vezes que nós fizemos isto, e pedir ao Senhor que nos ilumine, para entender que o amor pelo mundo, ou seja, por este espírito mundano, é inimigo de Deus.”

Explorar trabalhadores para enriquecer é pecado mortal

Na quinta-feira dia 19 de maio de 2016, na Missa em Santa Marta, o Papa Francisco afirmou que explorar os trabalhadores para enriquecer é ser como sanguessugas e isso é um pecado mortal.

O Santo Padre comentou a primeira leitura da liturgia do dia, extraída da carta de S. Tiago, e afirmou que “não se pode servir Deus e as riquezas”. Estas, as riquezas – continuou Francisco – são boas em si mesmas, mas erram aqueles que seguem a “teologia da prosperidade”.

O Papa recordou o que diz S. Tiago: “Olhai que o salário que não pagastes aos trabalhadores que ceifaram os vossos campos está a clamar; e os clamores dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor do universo!”

Francisco recordou a precaridade dos vínculos laborais e, em particular, citou o que lhe disse uma jovem que encontrou um emprego de 11 horas diárias por 650 euros na informalidade. E disseram-lhe que, se queria, podia ficar com o trabalho senão há mais quem queira: “há uma fila atrás de si”.

A exploração das pessoas hoje é uma verdadeira escravidão – denunciou o Papa: “Viver do sangue das pessoas. Isto é pecado mortal. É pecado mortal.”

No final da homilia de dia 19 de maio de 2016 o Papa Francisco propôs uma reflexão sobre a exploração das pessoas no mundo do trabalho e pediu ao Senhor que “nos faça entender aquela simplicidade que Jesus nos diz no Evangelho: É mais importante um copo de água em nome de Cristo que todas as riquezas acumuladas com a exploração das pessoas.”

“Sal da Terra, Luz do Mundo”, é aqui na Rádio Vaticano em língua portuguesa.

(RS)

06/11/2017 10:08