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Colômbia, preconceitos raciais: pobreza humana - P. Castillo

Uma vendedeira ambulante nas praias de Cartagena - AFP

05/09/2017 11:14

Cartagena, como referimos a semana passada, é a cidade colombiana emblema da presença secular de negros de origem africana naquele país latino-americano. Essa cidade da costa norte-ocidental da Colômbia será a última etapa da visita de cinco dias que o Papa Francisco inicia no dia 6 de Setembro à Colômbia, etapa em que o tema fundamental será “direitos humanos”.

Para o P. Rafael Castillho Torres, negro-africano, Vigário da Pastoral na Arquidiocese de Cartagena, essa é uma etapa indispensável na visita do Papa.

O P. Rafael foi entrevistado, há poucas semanas, na sede da arquidiocese, pela nossa colega alemã, Gudrun Sailer, e começou por ilustrar o plano pastoral  que tem uma vertente denominada “O rosto solidário”

“O plano pastoral “O rosto solidário” pretende, fundamentalmente, converter os valores do Reino de Deus em factos sociais. E isto pressupõe todo um trabalho na perspectiva do que significa direitos humanos. Promover a vida desejada por Jesus: “vim para que tenham vida e a tenham em abundância”. Então, neste plano, a Igreja procura fazer com que todos os filhos possam ter o mínimo necessário para realizar a grandeza do homem como filho de Deus, num contexto como o de Cartagena que, infelizmente, é contrastante e inequitativo, é excludente e discriminatório.

Outra coisa que fazemos no “rosto solidário” é inspirado na Doutrina Social da Igreja e com a ênfase que o Papa Francisco convida a pôr, quer dizer, abrirmo-nos ao caminho da reconciliação e da paz: nós, pelo menos na Colômbia, e na região caribenha, sentimos que já não temos lágrimas, porque já sofremos muito. E já é tempo de pôr termo a isto. Pará-lo através da fé, da esperança e da coragem que ser discípulos missionários de Jesus para este século XXI comporta para uma Igreja que tem tantos desafios. Então, para nós, o caminho da reconciliação e da paz é uma verdade do Evangelho que todos, bispos, padres, religiosos, leigos empenhados devemos ter como nossa opção fundamental e com a mais firme pressão deste “primeiro passo” a que nos convida o Papa Francisco.

E, terceiro, creio que com a Igreja do rosto solidário, também temos de experimentar como encarnar em nós a escola do “Bom Samaritano”, como uma espiritualidade, ou seja um estilo de vida, uma maneira de ser e de relacionar com os outros. E isso leva a promover bons cidadãos para que tenham essa nova arquitectura institucional que reclama a paz, promover novos líderes políticos necessários nesta sociedade colombiana e experimentar juntos a grandeza do perdão ver como promover a coesão social promover aquilo que chamamos iniciativas de ordem produtiva para que as pessoas tenham trabalho, autonomia, possam ter os rendimentos necessários para a sua vida e não sejam vitimizados, dependentes, porque quando se é cidadãos activos e se consegue levar à própria mesa o pão de cada dia, com o suor da própria testa, é-se uma pessoa incorruptível perante o processo indecente  do clientelismo politiqueiro  por que passa a Colômbia e muitos outros países da América Latina há muito anos.

Então, para nós, é muito importante, no “rosto solidário”, trabalhar para uma paz estável e duradoura, para a reconciliação, o perdão porque precisamos de salvar vidas, de nos reconciliar e, sobretudo, que a graça invisível dê frutos visíveis que possamos indicar com o dedo, mostrar que o Ressuscitado trouxe a paz e se fez vida entre nós. E temos que indicar com o dedo as coisas boas que fazemos na Colômbia como Igreja e que nos dizem, certamente, que o Reino já chegou”.

- Seculos após a sua chegada à Colômbia, os afro-descendentes continuam a ser os últimos da sociedade colombiana. Como se explica esta injustiça? - perguntou a colega Gudrun Sailer ao Padre Rafael Castillo Torres…

 “Nós, apesar de termos figuras emblemáticas no caminho de Santidade como São Pedro Claver que enalteceu a dignidade dos afro-descendentes e lhes restituiu a dignidade que esclavagistas lhes tinham tirado, e de nós, em Cartagena, termos feito todo um caminho de luta e de reivindicações, infelizmente, esta é uma cidade que se estabeleceu sobre a aristocracia e bases  discriminatórias. É uma cidade onde contam muito os apelidos, onde ser branco é ter privilégios e onde ser negro é ser uma coisa qualquer. Apesar de termos políticas públicas, de termos uma normativa jurídica, ainda não recuperamos esse caminho da dignidade, do respeito que permitam tratar-nos como iguais em termos de direitos. Vejamos por ex. (e você pode constatar isso), quem são os vendedores ambulantes em Cartagena, quem luta por sobreviver, quem são as empregadas domésticas, quem são as pessoas que trabalham na economia de subsistência?…. São os negros! Se for às zonas mais marginalizadas de Cartagena e olhar para quem os ocupa… são os negros, ser olhar para quem se proíbe entrar em certos lugares aqui em Cartagena, são os negros, e se for, por ex. a algum lugar de Cartagena muito sofisticado, onde dizem, “isto não é para todo o tipo de público”, você é europeia, certamente não lhe vão pôr restrições, se eu for como sacerdote com o clergiman, hão-de dizer amavelmente, “oh P. Castillo, faça favor, entre”. Mas se for como uma pessoa simples já não me vão reconhecer… enfim, para dizer que a cor da pele conta nesta cidade. São preconceitos e o que quero dizer é que isto é espelho da nossa pouca qualidade humana, isto mostra quão pobres somos humanamente.

E creio que como Igreja temos de trabalhar isto, fomentando o bom espírito. Diria que nos grupos de trabalho que temos, há pessoas que vão tomando cada vez maior consciência do que significa sentirmo-nos irmãos, do que significa tratar com respeito e dignidade a todos, mas acredito que mesmo dentro da própria Igreja há que fazer todo um trabalho para que esta verdade evangélica de que “somos irmãos” e que “somos filhos de um mesmo Pai” não seja só uma coisa que se diz, mas se põe em prática e que se deve ver nas nossas relações. Eu não digo isto porque sou negro; digo isto porque sou uma pessoa, porque creio que em primeiro lugar vem a dignidade humana. E creio que esta é uma linguagem da Igreja: promover a dignidade humana, a pessoa humana, mas não posso deixar de ter em consideração o facto de a valorização da pessoa humana em contextos como o de Cartagena, os negros são o que passam por maiores sofrimentos, maior exclusão, maior discriminação. E esta situação não me agrada. Não a podemos esconder, porque é uma verdade que todo o mundo pode ver”.

- Para o P. Castillo a Igreja deve empenhar-se e seguir o modelo de Jesus a Caminho de Emaús em que ele acompanhou, ouviu os apóstolos, deu-lhes esperança, levando-os à autonomia…

Nós temos de saber e ter muito claro que o Evangelho hoje devemos acolhê-lo de forma diferente, que temos de partir da periferia para o centro, caminhando com as comunidades, lendo a palavra de Deus em pequenos grupos, mas tendo em conta quais são as implicações que o compromisso cristão tem na dimensão social, politica, cultural e económica. Temos de impregnar de sentido cristão toda essa cultura na qual nos encontramos, e creio que temos mais gente na sacristia do que na rua ou na Praça. E creio que temos de ter um são equilíbrio nisto, conhecer bem o Evangelho, mas também a Constituição. O Evangelho nos inspira, nos motiva, nos enche de entusiasmo e isso nos permite ir para a frente, ir para além do dever, e conhecer uma ciência social como a dos direitos nos permite saber como regular-nos no acompanhamento e proximidade com as pessoas e comunidades. Isto é muito necessário".

E o P. Castillho concordou com a nossa colega, Gudrun Sailer que lhe perguntou se Cartagena não podia deixar de ser uma etapa obrigatória nesta visita do P. Francisco à Colômbia… E concordou porque, disse, em primeiro lugar, o Evangelho entrou na Colômbia pelo mar…

 “Cartagena foi a cidade por onde entraram todos os missionários. E por isso, a história de Cartagena está muito ligada à história da da Igreja. Segundo, temos um modelo de santidade que é São Pedro Claver. Não há dúvida de que São Pedro Claver é um referente muito forte, mas há também Santa Bernarda Bitler, São Luis Beltran. Aqui esteve D. Eugénio Biffi, ele é o Santo Bispo desta Igreja de Cartagena. Outra razão é que creio que o Papa Franciscos a partir de Cartagena deve falar ao mundo. Há três vergonhas: uma é este turismo sexual com tudo incluído que pensa que tudo vale e se despreza a dignidade humana. A Arquidiocese de Cartagena com o apoio da “Adveniat” promove o projecto Talitakum “Menina Levanta-te”, uma opção preferencial pelas meninas, vítimas da exploração sexual em Cartagena, um trabalho duro, profético acompanhado pela pastoral social. E o papa encontrar-se--à com elas e as suas famílias e também com os pobres da rua. Esta é uma vergonha que temos aqui e é bom que o Papa ponha luz neste problema e diga como se chama…

A segunda vergonha é a questão dos deserdados… O Papa vai-se encontrar com os que mais sofrem, os excluídos, marginalizados para nos dizer que os deserdados ocupam um lugar preferencial no coração de Deus e que ele nos ama e que há esperança.

O terceiro aspecto é que o Papa se vai encontrar com os Negros da região Caribe e com os negros da região do Pacífico, e os negros de toda a Colôbia estarão representados. E sei que o Papa os olhará nos olhos e os vai falar e lhes dar segurança, porque todos os Negros são amados e queridos pelo Papa Francisco. Temos a certeza de que vamos crescer no seu coração e que não estamos sós, que há uma pessoa que eleva a voz por nós porque é uma voz que nos dá segurança e nos enche de esperança”.

(DA)

05/09/2017 11:14