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Afro-colombianos: sempre em luta contra discriminações

As etapas da viagem Papa à Colômbia - RV

29/08/2017 13:33

O Papa Francisco realizará uma viagem apostólica à Colômbia de 6 a 11 de Setembro próximo. Depois de Bogotá, Villavicencio e Medellin, a última etapa da sua visita será Cartagena, cidade colombiana onde a presença de afrodescendentes é altamente significativa.

País com quase 49 milhões de habitantes, calcula-se que cerca de 10% dos colombianos sejam de descendência africana, ou seja mais de 10 milhões e meio de pessoas.

O lema da visita do Papa é “Demos o primeiro passo”, uma clara alusão ao processo de paz em curso para tirar a Colômbia dos mais de 50 anos de guerra entre as forças governamentais e diversos grupos guerrilheiros, nomeadamente, as FARC, Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia; guerra que já provocou à volta de 300 mil mortos e 6 milhões de deslocados. Todos esperam, portanto,  que a visita do Papa reforce esse esperançoso, mas frágil processo de paz. Aliás, as etapas da visita estão articuladas de forma a tocar todos os sectores-chave da sociedade para os encorajar a apoiar plenamente esta difícil caminhada em direcção a uma paz estável de duradoura. E uma dessas etapas, é precisamente Cartagena, onde as intervenções do Papa serão centradas sobre os direitos humanos…

“(…) E sobretudo o último encontro, o de Cartagena, muito importante o tema dos direitos humanos, pondo em realce a figura de São Pedro Claver como defensor, protector e promotor dos direitos do provo afro (…) uma memória para a reconciliação e para nos reencontrarmos com as nossas raízes profundas, como são as raízes indígenas, africanas, camponesas, populares.”

Palavras do teólogo colombiano, Fernando Torres, recolhidas recentemente na Colômbia pela colega alemã, Gudrun Sailer. Direitos humanos…. É que para além da antiga estigmatização, marginalização e pobreza ligadas à escravatura, o longo conflito de que a Colômbia está agora a tentar libertar-se, veio agravar ainda mais a situação social dos afrodescendentes do país, onde constituem uma boa parte dos seis milhões de deslocados. Luz Marina Becerra é uma delas e já foi perseguida por reclamar os seus direitos e denunciar discriminações por ser mulher, negra e pobre …

Ser mulher negra numa zona de conflito significa que nos toca enfrentar  todas as formas de discriminação; enfrentamos a discriminação estrutural;  nós, mulheres afro-colombiana, vivemos nos territórios mais ricos deste país (…), territórios muito ricos em minérios, recursos bio-energéticos e outros recursos naturais, territórios geograficamente muito estratégicos para a implementação de importantes megaprojectos e isto faz com que nos convertamos em alvos militares perante os interesses desses poderosos”.

Luz Marina Becerra num vídeo publicado no You Tube. Ela é líder de AFRODES, Associação dos Afro-colombianos Deslocados.

Embora a população da Colômbia seja composta por indígenas (3,4%), afrodescendentes (10,6%) mestiços (40%) e brancos (20%), só em 1991 é que o país foi reconhecido, constitucionalmente, como um Estado Multicultural. Dessa Constituição derivou a lei 70 de 1993, que legitima juridicamente a identidade histórica e sociocultural dos descendentes de africanos chegados à Colômbia há mais de 500 anos em condições de escravatura. Ao mesmo tempo reconhece-lhes o direito à fixação nas terras onde foram instalados desde essa época, e que são sobretudo na costa ocidental do país.

Essa lei que honra a Declaração da Colômbia como uma Nação multicultural e pluriétnica inaugurava, portanto, novas perspectivas sociais e culturais sem discriminações étnicas formais e previa também programas de desenvolvimento mirados para os afro.

Mas, 24 anos depois, quase nada mudou, escreve Santiago Arboleda Quinonez num artigo intitulado “Os afrodescendentes: entre a retórica do multiculturalismo e o fogo cruzado do desterro”. Aos afrodescendentes – sublinha - continua-se a negar qualquer possibilidade, incluindo a de serem considerados como grupo étnico, e os índices de necessidades básicas dos afros são superiores à media nacional, a atribuição de recursos quase nulo, e hoje muitos afrodescendentes estão abaixo da linha da pobreza. A deslocação interna constitui uma das principais causa de empobrecimento não só económica, mas também cultural. Tanto é que em 1999 foi criada, em Bogotá, a referida Associação de Colombianos Deslocados – AFRODES – para enfrentar esta problemática, ter dados certos e desenvolver programas para aliviar as consequências desta catástrofe.

Quando somos deslocados não só perdemos os nossos bens materiais, como também toda uma cultura que deixamos nos nossos territórios porque, tristemente, nas cidades onde chegamos não encontramos espaço para recriar, exercer aquilo que nos identifica como grupo étnico diferente e especialmente como mulheres, as nossas formas de produção tradicional, a formas de convivência, as nossas comidas, os nossos filhos não são unicamente nossos como mães, mas são de todo o povo, de toda a comunidade".

AFRODES pretende também que sejam criadas condições para os afrodescendentes poderem voltar aos seus territórios ancestrais…

O território para nós tem um significado bastante profundo, é poder ir ao rio nadar a qualquer hora com os nossos filhos, nossas comidas, é poder ir à praia ao anoitecer, fazer uma comida com os nossos vizinhos e amigos à luz da lua (nem sequer é preciso luz) é essa luz natural, da lua, é tudo isto que significa paz para nós e que haja direitos sexuais reprodutivos para as mulheres, que se tenham em conta as enfermidades típicas que como mulheres vivemos, que haja estudos sobre as morbilidades das mulheres-afro, é tudo isto que significa paz para nós

Tal como outras organizações afro-colombianas, também AFRODES luta contra as discriminações raciais de que essa ampla faixa da população colombiana é alvo:

Queremos deixar um legado, queremos que as novas gerações, que nos nossos descendentes possam viver num país diferente, possam viver num país, onde todos nós possamos sentar juntos sem se importar se o outro é branco, negro ou índio; onde os nossos filhos se possam sentar com a mestiça na rua e não tenham que voltar a casa a chorar e dizer “mamã é que a outra  criança não quis sentar comigo porque diz que sou negra”; um país onde todos nos sintamos acolhidos e incluídos”.

E é este sonho à maneira de Martin Luther King que dá força a Luz Marina Becerra, leader de AFRODES, para continuar a sua luta através desta organização, cujo fiscal, Bernardo Cuero Bravo foi assassinado a 20 de Junho passado. AFRODES condenou esse e outros assassinatos e ameaças de que líderes e jovens afro-colombianos são alvos. E vai avante nessa luta difícil por uma Colômbia melhor que saiba acolher todos os seus filhos no respeito dos direitos humanos…

“É isto que me dá força para continuar nesta luta, porque doutra forma seria um pouco egoísta. Sem fazer nada e ser indiferente perante tudo o que se passa… e daí tomo aquilo que dizia o grande líder americano, Martin Luther King… “Não me afecta a maldade dos maus, porque do mau espera-se algo assim, mas me incomoda a indiferença dos bons”.

Afrocolombianos, mais de 10% da população total da Colombia, país que o Papa vai visitar de 6 a 11 de Setembro entrante com o intento de contribuir para o reforço da árdua caminhada de paz, mas que é a única solução ao terrível conflito que ensanguentou o país nos últimos 50 anos.

Voltaremos ainda a falar dos afro-colombianos na nossa rubrica das segundas-feiras, dedicada à Década dos Afrodescendentes (2015-2024).  

 

 

 

 

 

 

29/08/2017 13:33