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UNESCO - Todos devem conhecer a amplidão do crime do Tráfico Negreiro

A biografia de Olaudah Equiano escrita por ele próprio - RV

23/08/2017 15:58

23 de Agosto é Dia Internacional de Memória do Tráfico Negreiro e da sua Abolição. Esta data foi escolhida em recordação da insurreição dos africanos escravizados no actual Haiti em 1791. Essa revolta pela conquista da liberdade ultrapassa todos os limites do espaço e do tempo. Ela fala à humanidade inteira – escreve a Directora Geral da UNESCO, Irina Bukova, na sua mensagem para este Dia. E sublinha que a Organização da ONU para a Educação e Cultura quer, com este Dia de Memória, pôr em evidencia a importância da transmissão da história para iluminar os combates contra todas as formas de opressão e racismo nos dias de hoje.

Irina Bukova refere-se à “Década Internacional das Pessoas de ascendência africana” (2015-2024), cujo objectivo é erradicar as injustiças sociais herdadas dessa história e lutar contra o racismo e as discriminações raciais. A revolta de 1791 no Haiti, como tantas outras, indicam a via, mas o caminho é ainda longo – recorda Irina. Nessa caminhada se inscreve a elevação de Mbanza Kongo (Angola) e o Cais do Valongo (Brasil) a Património Mundial da Humanidade, de que, aliás, já temos falado na nossa rubrica de segunda-feira sobre “A Década Internacional dos Afrodescendentes. São lugares que estão ligados à resistência, liberdade e herança dos africanos escravizados. O seu reconhecimento como Património – aponta Irina Bukova – “é determinante para a sensibilização pública, para a educação dos jovens, assim como para os processos de conciliação e coesão social”. Um esforço permanente pela afirmação da dignidade humana ao qual a UNESCO se consagra com todas as suas forças – assegura a Directora. E como exemplo disso indica o grande projecto “A Rota do Escravo” e o ensino da História Geral da África. “A ignorância é nossa inimiga: serve de alibi aos indiferentes que afirmam em que “nada podemos mudar”, e cauciona as mentiras daqueles que pretendem “que não sabiam de nada”. Todos devem conhecer a amplidão do crime do tráfico negreiro, os milhões de vidas ceifadas e as consequência disso sobre os destinos dos continentes até aos nossos dias. Cada um deve estar plenamente informado sobre as lutas que levaram à abolição, para que juntos construamos sociedades mais justas e, por conseguinte, mas livres” – concluiu a Directora Geral da UNESCO.

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Hoje infelizmente já não existem testemunhos directos daqueles que viveram na própria pela a experiencia do tráfico negreiro e a escravidão. Mas Régine Mfoumou-Arthur, camarunesa, professora de Literatura francesa em Londres, escritora, tradutora e editou há pouco mais de dez anos, a autobiografia de Olaudah Equiano, primeiro escravo negro a escrever um livro... O livro é de 1789 e é estudado em muitas Universidades dos Estados Unidos, das Antilhas e da Inglaterra, mas é praticamente desconhecido em África e no resto do mundo.

Nas suas pesquisas para a sua tese universitária, Régine Mfoumu embate-se casualmente numa edição de 1989 desse livro e apaixona-se por ele, acabando por traduzi-lo do inglês para o francês.  O livro foi publicado em 2005 pela Harmattan em versão abreviada para um publico alargado. Tem como título “Olaudah Equiano ou Gustavus Vassa, o Africano: a apaixonante narração da minha vida”. Em 2002 Régine já tinha publicado uma edição com muitas notas para os docentes universitários. A Rádio Vaticano entrevistou em 2005 Régine Mfoumou, começando por lhe perguntar o que lhe atraiu nessa obra... 

« O que inicialmente me atraiu foi o facto de me dar conta de que Equiano tinha perfeitamente a consciência daquilo que ele era, quer dizer, um africano e que ele recusava totalmente ser alienado pelo sistema esclavagista. Ele aceita ser escravo porque não tem outra escolha, mas aproveita tudo o que a cidade lhe oferece como oportunidades não só para se instruir – porque ele aprende a ler e a escrever nas condições mais adversas – uma vez escondendo-se dentro de um navio para ler à luz duma vela, por pouco não se incendiava todo o barco... portanto Equiano é alguém que ao longo de toda a sua vida lutou para fazer reconhecer que estava sim num sistema que lhe era completamente hostil, mas que mesmo assim tem coisas a dizer porque enquanto ser humano…. E ele queria que os seus irmãos escravos agissem também deste modo; ele luta durante toda a vida para fazer reconhecer a sua identidade de africano... e foi isso que, inicialmente, chamou a minha atenção.”

       A escravatura nos textos de leitura da autoria de negros é a seu ver mais completa nos seus horrores... quer dizer esses livros oferecem mais elementos para compreender o fenómeno da escravatura?

       « Sim, acho que é interessante ter o ponto de vista dum escravo que viveu na própria pele essas atrocidades. O que é surpreendente no caso de Equiano é que ele não nega o facto de que existia a escravatura em África. Simplesmente ele faz notar a diferença entre essa escravatura e a que ele viveu na Europa, no mundo ocidental. Ele diz por ex. que em África alguns escravos tinham mesmo a possibilidade de ter outros escravos ao seu serviço; os escravos não comiam à mesa com o patrão, mas podiam comer ao lado dele. No mundo ocidental não, o escravo perde o seu estatuto de ser humano. É visto como objecto, como uma coisa. Em África os escravos tinham condições humanas de vida que Equiano nunca viu no seu cativeiro”.

       Que importância pode ter hoje, no contexto do Dia Internacional de Memória do Tráfico Negreiro Transatlântico e da sua Abolição que ocorre a 23 de Agosto?

 " Creio que o que é interessante nesta obra é o facto de ter sido escrito por um escravo e que, coisa rara, não foi revisto por europeus. Estamos, portanto, perante uma narração verídica. É claro que o facto de ter sido escrito por Equiano foi muitas vezes contestada e ele viu-se muitas vezes confrontado com isto, tendo de mostrar, através de artigos em jornais da época, que era ele e ninguém mais o autor dessa obra. À parte isto, ele foi muitas vezes atacado no sentido de que muitas pessoas diziam que ele não tinha sido trazido da África, que tinha nascido na Inglaterra, que sabia ler e escrever e que, portanto fazia parte do sistema. Foi por isso que ele foi capaz de escrever esse livro. Aquilo que quero, portanto, dizer é que um livro desse tipo é hoje muito importante sobretudo para a juventude africana que anda um pouco à procura de horizontes... não sabemos bem para onde vamos... Equiano é, portanto, um exemplo para muitos africanos jovens ou velhos, pouco importa a idade ... para dizermos que não é porque somos africanos que para nos integrarmos na Europa temos de nos submeter a tudo ... é claro que nos submetemos às leis... mas ... temos coisas a dizer e é preciso que as digamos... não temos de nos fundir na massa - é preciso que procuremos distinguir-nos e fazer coisas para a nossa comunidade”.

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Biografia de Oladah Equiano

       Oladah Equianou, tornou-se famoso com a publicação, em 1789, da sua autobiografia intitulada “A interessante Narrativa da vida de Oladah Equianou ou Gustavus Vassa, o Africano”, livro muito popular numa altura em que a campanha anti-esclavagista começava a ganhar peso. Equiano tinha então 44 anos de idade. Ele nascera em 1745 numa aldeia chamada Eboé, na actual Nigéria, filho de um chefe da população local. Quando tinha cerca de 11 anos, ele e a sua irmã foram raptados e levados num navio inglês naquele que ficará na História como o Tráfico Negreiro Transatlântico. Equiano foi depois comprado por um oficial naval britânico que lhe deu o nome de Gustavus Vassa e o introduziu à vida de marinheiro. Inicialmente Equiano foi levado para a Inglaterra, onde aprendeu a ler e a escrever entre uma viagem naval e outra. Ele assistiu também às maiores batalhas navais durante a chamada Guerra dos Sete Anos na década de 1750, viajando entre o Canadá e o Mediterrâneo.

Ele foi depois baptizado e combateu a favor dos ingleses, ganhando assim o direito a comprar a sua liberdade e prémios em dinheiro que eram dados aos marinheiros. Mas ele foi defraudado desse recurso e vendido como escravo a um outro capitão de navio que o levou para Monseratt, nas Caraíbas, onde foi de novo vendido a um certo Robert King, um mercante da Sociedade dos Amigos, os chamados Quakers. Durante esse tempo Equiano estava exposto aos piores horrores da escravatura, vendo companheiros tratados de maneira abominável. Mais afortunado do que os seus companheiros na medida em que desempenhava o papel de capataz nas plantações, no fim de três anos já tinha dinheiro para comprar a sua liberdade por 40 libras. Era o ano de 1766. Ele descreve este episódio com muita ênfase e alegria na sua autobiografia.

Comprada a sua liberdade, Equiano regressou à Inglaterra, onde se tornou cabeleireiro, mas não demorou a voltar à sua vida de marinheiro. Em 1773 embarcou numa viagem de exploração da passagem a noroeste para a Índia através do Polo Norte.

Em 1775 envolveu-se num projecto de criação duma nova plantação nas Caraíbas e na América Central. Durante esse tempo Equiano e os seus associados compraram escravos, mas ele diz na sua autobiografia que fez “tudo quanto lhe era possível para garantir conforto a essas criaturas”. Isto foi na década de 1770, quando o anti-esclavagista não estava ainda organizado em movimento, mas contrasta certamente com o protesto anti-esclavagista que Equiano viria a abraçar mais tarde e a sua aliança com Granville Sharpe, um proeminente abolicionista britânico.

Equiano recorrera a Sharpe na tentativa de salvar, num leilão, o ex-escravo e seu amigo, John Annis, que tinha sido ilegalmente raptado pelo seu antigo patrão que o queria mandar de novo para as Caraíbas. Infelizmente, essa tentativa de salvar John não deu resultados.

A experiência de Equiano como proprietário de escravos foi uma experiência amarga, na medida em que ele foi mais uma vez defraudado de todo o seu dinheiro e ameaçado de ser ele próprio reconduzido à escravatura.

O seu livro, publicado em 1789, era único no seu género, enquanto Equiano não só o escreveu ele próprio como também para o publicar recorreu a uma subscrição, portanto teve de arranjar antecipadamente apoiantes financeiros. Depois ele vendeu o livro pela Inglaterra toda, fazendo digressões de leitura e participando activamente na campanha de abolição do comércio de escravos.

Em 1792 ele casou-se com uma mulher inglesa, Susanna Cullen, e tiveram duas filhas. Equiano morreu a 31 de Março de 1797, há, portanto, 220 anos.

(Fonte: BBC) 

(DA) 

23/08/2017 15:58