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Formar-se, Acreditar, continuar, insistir - conselhos de Félicité

Félicité Mbezele - Nunca pôr o sucesso a todo o custo em primeiro lugar - RV

10/07/2017 20:12

Continuação da conversa com Félicité Mbezéle, camaronesa que veio a Roma em 1990 com o objectivo de estudar artes dramáticas. Frequentou a Academia “Pietro Sharoff” e começou a trabalhar, também no mundo da imigração em Itália como medianeira cultural, levando a cultura africana às escolas, fazendo com que houvesse mais literatura africana nas bibliotecas romanas, etc. etc.

O seu objectivo formar-se e regressar à África, ao seu país, os Camarões, mas 27 anos depois ainda anda por cá, estando agora a procurar orientar-se, como diz, para a francofonia…

Ela tem encenado, por conta própria, muitos textos teatrais, literários, sempre acompanhados de música tradicional africana, cantos e danças… A sua maior obra é “Kanteros” que vamos hoje conhecer.

Mas, para além disso tudo, tem interpretado, no âmbito teatral, cinematográfico e televisivo, diversos papeis em peças como “Casais abertos” de Dário Fó (grande dramaturgo italiano, nobel da literatura em 1997 e falecido o ano passado), “Uma mulher como amigo” (série televisiva); “Irmã Mary”, série sobre Madre Teresa de Calcutá; “Um Negro pela casa” de Gigi Proietti; “Um ciclone na família” e “O jantar do domingo” dos irmãos Vanzina, etc. Mas no conjunto, Félicité não está satisfeita, sente que lhe falta o merecido reconhecimento…

O meu percurso e experiência feita no campo laboral é considerável porque são factos e são de algum modo experiências vividas; pessoas encontradas, riqueza recebida dos outros e, espero ter também dado alguma coisa. O meu percurso assim como as experiências vividas me dão o direito a um certo reconhecimento

- E o facto de este reconhecimento não ter chegado, gera nela insatisfação…

“Eu sei que os meus directores/realizadores estimam-me, caso contrário, não me chamariam [para trabalhar]. Há um certo reconhecimento. Porém, há também outras formas de exprimir o reconhecimento. Estas outras formas de reconhecimento sinto que faltam; há direitos e deveres; se eu, os meus deveres de actriz os respeito, também os direitos devem ser reconhecidos. Quando esses direitos faltam, a pessoa pode ser muito boazinha, muito simples, muito reconhecida… mas é preciso ter todos os direitos, reconhecimentos, como prémios, uma série de pequenas coisas que exprimem reconhecimento… Caso contrário, não se fariam festivais disso, daquilo e daqueloutro. Se é verdade que há um reconhecimento, deve ser expresso, porque o dinheiro, sim…  trabalha-se também para se ter um ordenado, mas não é só isso.

Alguns me dizem, ah, sabes, Félicité, se estivesses em Franòa, na Inglaterra… tantos anos…  isto, isso, aquilo… mas eu gosto da Itália, as experiências laborais que já fiz dizem que mereço, escolheram-me, confiaram-me papeis a desenvolver, encontrei pessoas importantes da cultura italiana, como Ettore Scola, Gigi Proietti, como os irmãos Vanzina, como Rossella Izzo e tantos outros que, se calhar cometo um erro em não nomear… Se me atribuem papeis e depois me dizem “Brava!”, eu acredito… E eu digo obrigada…

E há tantas outras experiências que fiz desde 1992 até ao ano passado, como “medianeira cultural” em que me foram confiadas turmas inteiras… lembro-me de entreter cerca de 250 alunos de uma escola e os professores ficavam, inicialmente, preocupados… e depois ficavam contentes e diziam, mas como é que fizeste para os ter ali quietinhos, atentos?!...  Não é uma questão de força, é um dom que Deus te dá e o pões à disposição das pessoas!…

Mas, se uma pessoa tem um pequeno mérito, reconhece-o, é amor pela verdade, a meu ver. Esta é a verdade… Podes não agradar-me, mas se és uma boa pessoa, digo-te, não gosto de ti, mas és boa pessoa, ou “interpretas bem o teu papel”, embora não me sejas simpática… certas coisas”…

- E isto lhe faz sentir infeliz?

Ah, eu chamo-me Felicité (riso), é difícil tornar-me infeliz, mas sinto muito quando isto acontece, porque essas pessoas mostram quão grande é a sua pequenez em termos de humanidade… que falta a elas, não a mim.”

- E é por isso que está a deixar a Itália, orientando-se para a francofonia, a transferir-se para a França?

“(riso), Não, eu não abandono a Itália por estas razões. Se assim fosse, teria partido muito antes. Deixo a Itália porque preciso de traduzir os meus trabalhos para os poder oferecer à África; é a minha ideia de África que me faz procurar uma outra forma de poder exprimir-me na língua à qual, quando jovem, virei as costas, porque pensava que também em língua italiana se pudesse falar ao mundo. Não me enganei tanto, mas foi de algum modo um erro, porque teria podido fazê-lo antes, então teria ido directamente em direcção à África, mas necessito da língua francesa”.

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Uma pausa musical com a artista musical Charlotte Dipanda, ela também dos camarões com a canção Mispa, dedicada à sua avó, com quem cresceu. Nesta canção, em francês, ela diz que mesmo que o vento a leve para longe da avó, a sua sageza e orações a acompanharão sempre e ela tornará, Mispa (nome da avó) orgulhosa..

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Mispa, palavras nobres, nas notas suaves de Chalorte Dipanda. E de cantora a actriz, vamos então de novo à conversa com Felicité Mbezele que, se de forma geral, como vimos, se sente frustrada pelo facto de não ter recebido na Itália o reconhecimento que, a seu ver, merece, por outro, há algo que lhe dá imensa satisfação: o facto de o grande actor italiano, Ettore  Scola ter apreciado muito um texto teatral que é, de algum modo, fruto das suas entranhas, “Kanteros”:

Kanteros, uma africana em Roma”. E imagina que este subtítulo (uma africana em Roma) quem o quis, de coração, foi Ettore Scola… ainda dá-me arrepios … Praticamente me emprestou um dos seus títulos e trabalhou…. Eu me lembro, que quando terminamos o espectáculo, ele convidou-me para jantar, estávamos no inverno, tomou o meu xaile e disse-me:  “Senhora” … como se fosse de Holliwood. Estes são os reconhecimentos que me fazem esquecer outras pequenas coisas…

Mas o que é Kanteros exactamente? De que trata Felicité nesta obra das suas entranhas?

O meu vir à Europa, como tantos outros africanos que gostariam de chegar à Europa…  muitas vezes partimos pensando que o mundo é aquele que conhecemos a partir da África, aquele que imaginamos… Depois tinha começado a promover a literatura africana nas escolas, comecei a colaborar  com a secção bibliotecária de Roma e senti que havia a necessidade de nos darmos a conhecer e isto requer conhecermos, antes de mais a nós mesmos, africanos.  E começava ao mesmo tempo a frequentar a África [os africanos] aqui e notei que nós - e isto juntamente com a imagem da Europa que tinha na minha cabeça - não nos conhecemos e não sabemos sequer para onde vamos. Então, isto falta no nosso encontro com os outros e, o outro, é claro, não nos conhece. Então, “Kanteros” nasceu para nos darmos a conhecer a nós mesmos e aos outros. E se tu te perguntas quem és, forçosamente te perguntas quem é o outro. E das respostas que te dás, reconstróis o encontro. E “Kanteros” é esses encontro entre as culturas”.

- Um problema muito actual, portanto!

“É mais do que nunca actual, vendo o que se está a passar com os nossos filhos, irmãos que partem via mar para a Europa... Isto me recorda uma francesa que me disse, quando encenávamos a peça, que é uma história não só africana. É uma história de qualquer pessoa que se desloca de um lado para outro e vai ao encontro duma outra cultura, de um novo mundo.”

- E ao descrever “Kanteros”, Félicité recorda também a filha de Ettore Scola, Silvia:

“Uma mulher que vem com uma bagagem cultural, africana, e que encontra uma nova cultura, uma cultura igualmente importante como a cultura romana. Será fácil, será belo, será insignificante?!  Não, absolutamente!  É nisto que se baseia a peça. E era belo, era belo porque ele reconheceu o valor disto. Eu nomeio sempre o papá Ettore Scola, sem nomear também Silvia Scola, sua filha que com o seu pai me acompanharam nessa “viagem” em que – imaginem! – se fala até “romanesco” [dialecto de Roma] e eles me apoiaram, reconheceram e me deram um valor que só os meus antepassados africanos  (riso) ... porque eles reagem... encontrar uma população igualmente profunda como a romana e o que nasceu... no início queria fazer uma curta metragem ou um documentário, depois pensei que seria complicado porque são precisos muitos meios e por isso fiz uma  adaptação teatral e Silvia Scola veio ver a peça e contou tudo ao seu pai e, juntos, decidiram me acompanhar nisto e fizeram-no com uma tão grande humanidade que não podia ser só porque me encontraram, é porque eles são pessoas com uma alma humana, uma sensibilidade, são verdadeiros artístistas.

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Mais uma pausa musical ainda com Charlotte Dipanda, antes de vermos com Félicité, as dificuldades que comporta para uma mulher negra ser actriz tanto na Europa como em África…

A canção que vamos agora ouvir é numa das línguas dos Camarões e intitula-se “Alea Mba” que significa “apoia-me”…

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- Félicité, como é ser actriz na Europa, é difícil?

Para uma mulher, ainda por cima, negra... quem é que se vai pôr a escrever textos precisamente para negros.... Imagina-se que só podes interpretar papeis de “badante” [aqueles/as que cuidam de anciãos]... Eu tive o papel da “Irmã Mary” e era um belo papel, mas normalmente, porque és negra, a maior parte dos papeis que te atribuem é de empregada doméstica, de prostituta, de mulher de limpeza, etc. E, no entanto, há tantos negros com belas histórias como todos os seres humanos.... portanto, é difícil por esta razão”...

- E em África, é também dificil ser actriz? Tenho ouvido dizer que mulheres artistas nalguns países não são bem vistas. Tende-se, no caso de uma actriz, a identificá-la com o papel que interpreta no teatro ou no cinema. Se interpreta uma prostituta é porque é realmente prostituta... O que nos pode dizer acerca das dificuldades em África?

A primeira dificuldade em África é o conhecimento da matéria, o que significa ser actriz?! Para mim a própria cultura africana é baseada na arte da palavra, a oralidade, o valor da palavra que deverá ser um instrumento para sensibilizar as pessoas a reconhecer o bem, a tomar consciência dos valores humanos. Esta a visão que sempre tive e tenho da minha profissão. Mas os outros reconhecem isto, têm consciencia disto?! Um problema!

Um outro problema é que, a industria do espectáculo não está ainda desenvolvida em África. Há muito caminho a andar para valorizar esta profissão, mesmo da parte dos próprios artistas – muitos pensam que devem ser vulgares, mas não é este o caminho. Os grandes artistas, homens de teatro... eram pessoas de letras... este é, portanto, o verdadeiro papel. Toca também a nós artistas levar este conhecimento ao povo. A valorização e o conhecimento da nossa própria cultura, passam também pela compreensão de que a nossa é uma cultura da oralidade, da palavra, da literatura; fazer compreender às pessoas que se interpretas determinados papeis não é porque não és uma menina séria... quando isto acontece é a ignorância que fala. Uma pessoa de teatro é uma pessoa da palavra e deve colher verdadeiramente a essência da cultura africana que nos permite conhecer o passado para viver melhor o futuro. E há também um outro factor que torna frágil esta nossa profissão: a corrida ao enriquecimento, a procura do dinheiro.”

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- Disse que leu muitos textos de teatro e de literatura de muitos autores europeus. Tem lido também africanos?

Tenho lido muitos outros. O meu segundo estágio era com “O Leão e a Perla” de Wole Soynka e fiz também “Os anos da infância” de Chinua  Achebe e tenho feito outras representações teatrais de escritos africanos como “Uma criança Negra” de Kamaralaye... que são clássicos da literatura africana. O meu empenho era precisamente ajudar a conhecer... os jovens geralmente não lêem muito, mas fiz umas adaptações teatrais para os incitar a ler e, felizmente, Walter Veltroni [então Presidente da Câmara de Roma e homem de cultura cinematografica] tinha dado a possibilidade de fazer traduções de obras literarias africanas...

- Que conselhos daria às jovens de hoje que eventualmente desejam seguir, em Roma, a profissão que escolheu, actriz?

“Ter a consciência de que é preciso uma boa preparação cultural, literária, uma educação de base e continuar bem os estudos, mantendo sempre claros os objectivos, porque não é uma profissão fácil, mas é preciso acreditar naquilo que uma pessoa quer fazer. Acreditar, continuar, insistir. É verdade que é preciso sempre estar atentos, avaliar bem as propostas porque o mundo do espectáculo é vasto. E eu tive a sorte de encontrar pessoas que respeitam o seu trabalho, mas como se costuma dizer em Itália, “Todo o mundo é aldeia”. Se estás de tal maneira orientado a querer ter grande sucesso, a todo o custo, podes arriscar... Se te der certo, bem... mas nunca pôr à frente só o desejo de sucesso. O trabalho de base é o mais importante. E de qualquer modo, não ter como base só a Itália, mas desfrutar as possibilidades que a Europa te dá de ter uma bagagem mais ampla. Creio que este foi o erro que cometi e que agora quero remediar, mas eu gosto muito da Itália e estou sempre em Itália.”

- Podemos dizer que hoje há muitos africanos neste domínio em Itália, ou foi e é aqui uma perla rara?

Bem, até certo ponto fui uma perla rara. Mas hoje há muitos africanos aqui, muitos dos quais querem abraçar esta profissão. E muitos africanos que estão a orientar-se para a África. Há um rapaz italiano que fez uma resenha dos artistas africanos em Roma e o que mais me surpreendeu é que são tantos, têm nomes de arte como “Negra do Sol”, “Ambretta”, “Sol brilhante”... italianos mestiços e africanos que estão muito interessados... Antes havia sobretudo cantores, modelos... mas formação teatral com abertura para o cinema... se queres sobreviver... a televisão é importante... porque dá notoriedade... O que não fiz, foi talvez o de publicizar-me mais ou talvez não tive um bom agente que me ajudasse, mas não queria também correr outros riscos...

- Correu algum risco?

Não creio. Acho que não corri riscos e é talvez por isso que não fiz tanta publicidade de mim mesma. Talvez seja também culpa minha, não me expus como devia”.

- Foste demasiado prudente?

Não, queria simplesmente valorizar o meu lado profissional, queria que... se sou reconhecida é porque apreciam o meu trabalho e não porque me vendi melhor”.

(DA) 

10/07/2017 20:12