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De Ouidah, a Cuba, passando pelo México... rota dos afrodescendentes

Porta-do-Não-Retorno em Ouidah, no Benin, em memória dos africanos levados como escravos para o "novo mundo" - RV

01/07/2017 12:05

Continuamos a nossa rubrica das segundas-feiras sobre a Década dos Afrodescendentes lançada pela ONU em 2015 e que irá até 2024. O intento é fazer emergir melhor as consequências da escravatura e do colonialismo na vida dessas pessoas pelo mundo fora, procurar combatê-los para que essas pessoas tenham uma vida mais digna e seja reconhecido o seu contributo ao crescimento da humanidade inteira…

Depois de ter falado um pouco do Brasil, país com um grande número de afrodescendentes, continuamos ainda hoje na América Latina, para recordar a viagem que Bento XVI fez ao México e Cuba em 2012, dois países cuja história está bastante entrelaçada com a África… O Papa Ratzinger visitou esses dois países poucos meses depois de ter estado em Ouidah, no Benin, viagem que nos levara, na altura a escrever um texto intitulado “ De Ouidah a Cuba, passando pelo México: Bento XVI na rota dos afrodescendentes”.

Vamos hoje reler algumas passagens desse texto, ligando-o também à Década Internacional dos Afrodescendente - 2015-2024.

A “Porta do Não-retorno” e a “Porta do Perdão”. Estão ali a poucos metros de distância uma da outra, entre a praia e a cidadezinha beninesa de Ouidah, que viu partir milhões de africanos acorrentados, e a chegada do Evangelho, levado pelos missionários.

Estão ali a recordar o dever de “denunciar e de combater todas as formas de escravatura” – disse Bento XVI, que escolheu, em Novembro de 2011, precisamente Ouidah, com toda a sua carga simbólica de sofrimento e de esperança, para entregar aos bispos da África, na Basílica da Imaculada Conceição de Maria, a exortação apostólica “Africae Munus”. Este documento - publicado pelo agora Papa emérito na sequencia do II Sínodo dos Bispos para a África de 2010 - sublinha que “A Igreja em África é chamada a promover a paz e a justiça” no espírito de reconciliação que nos vem de Deus.

O Papa estava para partir para o Benin quando foi anunciada a sua viagem, em Março de 2012, ao México e a Cuba, dois dos pontos de chegada daqueles milhões de africanos passados pela “Porta do Não-Retorno”. Dois países onde se encontra hoje uma parte daqueles cerca de 300 milhões de afrodescendentes dispersos pelo mundo, sobretudo nas Américas e Caraíbas. A eles, as Nações Unidas dedicaram o ano 2011 e agora a Década 2015-2024. Objectivo: reforçar as acções locais, nacionais, regionais e  internacionais em benefício das pessoas de descendência africana. Tudo, a fim de poderem gozar de todos os direitos humanos, e de poderem participar e integrar todos os âmbitos da vida social e seja promovido um maior conhecimento e respeito da sua herança cultural e contributo ao crescimento da Humanidade inteira.

Os estigmas deixados pela escravatura e o tráfico transatlântico estão, com efeito, ainda longe de desaparecer completamente e o racismo e a discriminação que deles derivam continuam a condicionar a vida das pessoas de descendência africana onde quer que estejam.

“A comunidade internacional não pode aceitar que comunidades inteiras sejam marginalizadas por causa da cor da pele”, frisava Ban Ki-Moon, ao solicitar em 2011 projectos e programas de actividade orientados para a concretização dos objectivos do Ano Internacional dos Afro-descendentes. E respostas neste sentido não faltaram: o primeiro a dar exemplo foi a própria ONU com o projecto de um imponente monumento na entrada da sua sede, em Nova Iorque, em memória das vítimas daquele tráfico criminal através dos Oceanos. Um tráfico que o Papa João Paulo II definira de “holocausto  esquecido” e pelo qual pediu perdão por parte da Igreja, na Ilha de Gorée, no Senegal, em 1992.

Depois, de Angola ao Brasil, do Gabão ao Peru, seminários, encontros culturais, estudos, cimeiras, publicações, medidas jurídicas ou um maior esforço de aplicação das já existentes, procuraram chamar a atenção para as injustiças e desigualdades que tornam difícil a integração e a subida na escala social dos afro-descendentes. No entanto, eles deram e continuam a dar um contributo não só económico como também humano e cultural ao mundo inteiro. Basta pensar nas línguas crioulas, nas diversas expressividades religiosas, no jazz ou no tango que fazem hoje divertir muitas pessoas, inconscientes, todavia, da origem dessas expressões culturais nas plantações do “novo mundo”, onde representaram para o africano escravizado uma forma de resistência ao aniquilamento físico, social, cultural e espiritual.

Reconhecer todos os obstáculos ao desabrochamento social do afrodescendente e enfrentá-los seriamente é não só um dever moral de todos, mas também um grande contributo à paz, à justiça e à reconciliação a nível mundial. Com efeito, o tema da Década que agora está a decorrer é “Reconhecimento, Justiça e Desenvolvimento

Por seu lado, a África terá de fazer o máximo para atingir um desenvolvimento integral, por forma a ter um reflexo positivo sobre os seus descendentes no resto do mundo, que a União Africana optou por definir “sexta região”, com o intento de colher a grande energia representada pela diáspora para a construção da “Grande África”. Mas desta louvável ideia não se sabe grande coisa, há pouca informação… Esperemos que a UA esteja realmente a levar este projecto para a frente…  

A Igreja está plenamente mergulhada neste processo. “Africae Munus” (O Empenho da África), fruto da reflexão dos bispos sobre o papel da Igreja na promoção da paz, justiça e reconciliação no Continente, é um exemplo emblemático disto. É também um apelo a toda a África a empenhar-se, a fazer bom uso das energias positivas de que é rica e a torná-las úteis ao resto do mundo: “África, Boa Nova para a Igreja, torna-te nisto mesmo para o mundo inteiro”  - exortou o Papa Bento XVI, no Benin.

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Bento XVI foi ao México em Março de 2012 para celebrar os duzentos anos da independência da maior parte dos países latino-americanos. Mas, muito antes desse feliz evento da independência, foram os africanos levados do então Reino do Congo como escravos que, já no século XVII/XVIII, tentaram uma ruptura com a Espanha, procurando, em vão, proclamar um reino africano em terras mexicanas. Maioritários no Exército, então formado essencialmente de escravos, a presença africana no México foi, todavia, diluindo-se. Hoje seria talvez necessário um estudo do DNA (aliás, já várias vezes aventada) para encontrar sinais dessa presença na população.

O mesmo não se pode dizer de Cuba, onde a presença e o contributo cultural dos afro-descendentes é visível. Segundo uma lenda um dos seus ascendentes estaria mesmo entre aqueles que avistaram no mar, Nossa Senhora da Caridade do Cobre, cujo jubileu levou o Papa àquela importante ilha das Caraíbas. Aliás, foi precisamente em El Cobre que se verificaram já no século XVI as primeiras revoltas de negros em Cuba. Na época da conquista da África e do tráfico negreiro, a Igreja, impotente perante a força do mercantilismo deu, todavia, um sinal positivo, pedindo que os escravos fossem baptizados, como que a recordar que eram pessoas e não “coisas”, como os classificou juridicamente o rei da França, Luís XIV, ao promulgar em 1685 o tristemente famoso “Código Negro”.

O Papa Bento XVI levava no coração “o caminho de integração” da América Latina e “do seu novo protagonismo emergente no concerto mundial”, assim como a procura duma sã liberdade à qual anelam aqueles povos. Liberdade que desde os primórdios do tráfico negreiro manteve viva a chama da esperança no ânimo daqueles homens, mulheres e crianças arrancados com violência à Mãe África, Berço da Humanidade, e levados para o chamado novo mundo, como escravos.

Que esta integração e este novo protagonismo não se faça à revelia dos afrodescendentes e que a bênção que o Papa Bento XVI, assim como o seu sucessor, Francisco, têm levado a toda a América Latina se estenda também sobre eles. Que este apoio na óptica da justiça e da paz para todos ajude a percorrer até ao fundo as pistas traçadas, primeiro pelo Ano Internacional dos Afrodescendentes em 2011 e agora prolongadas pela “Década 2015-2024”.

Em 2001, na sequência da Conferência de Durban sobre o racismo, foi criado um “Grupo internacional de Trabalho” formado de peritos sobre “Pessoas de Ascendência Africana”. Segundo este Grupo de Trabalho, os maiores desafios que os afrodescendentes enfrentam dizem respeito à sua representação social e ao tratamento, muitas vezes iníqua, nas instituições administrativas, de justiça, de educação, de saúde, de habitação, etc. Instituições essas que se tornam assim naquilo que a Doutrina Social da Igreja definiria de “estruturas de pecado”. Que a “Década dos Afrodescendentes” contribua para as tornar mais humanas.

Tudo somado, o balanço do Ano Internacional dos Afro-descendentes foi positivo. Alguns peritos viram, por exemplo, na nomeação da afrodescendente, Susana Baca, ao cargo de Ministra da Cultura no Peru, precisamente em 2011, uma expressão positiva dos objectivos pré-fixados por Ban Ki-Moon com a proclamação do Ano Internacional dos Afrodescendentes. Cantora, Susana Baca é, ao que parece, de ascendência angolana.

Um outro sinal positivo era visto por muitos no facto de o Brasil ter prometido na altura reunir os frutos dessas reflexões e publicar diversos livros no âmbito da “Colecção Saiba Mais”, destinado a satisfazer a demanda de material didáctico na área da cultura afro-brasileira.

Que Nossa senhora de Guadalupe, Padroeira da América Latina, olhe para “A Década dos Afrodescendentes” e a ajude a dar frutos positivos.  

(DA)

 

01/07/2017 12:05