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África: há 50 anos a tragédia de Biafra, entre guerra e carestia

Civis em fuga durante a guerra civil da Nigéria /Foto de arquivo - AFP

31/05/2017 14:54

Há cinquenta anos atrás, depois de contestadas reformas territoriais na Nigéria, o Biafra proclamava-se independente. A decisão provocou um conflito sangrento entre o Estado central e a Região.

O Biafra, com 14 milhões de habitantes na sua maioria cristãos e por dois terços da etnia Igbo, área riquíssima em petróleo e matérias-primas, viveu por quase três anos antes que a secessão fosse reprimida, também por causa de uma grave carestia. As vítimas foram cerca de um milhão.

Segundo muitos observadores, aquela questão provocou feridas que ainda continuam. Sobre o caso Giancarlo La Vella falou com o Padre Comboniano Giulio Albanese, director das revistas missionárias das Pontifícias Obras Missionárias:

"O pano de fundo [da crise de Biafra] foi o da Guerra Fria: algumas Nações reconheceram oficialmente esta nova república separatista e, depois, houve também interferências por parte das potências da época. Por exemplo, houve apoio do governo de Paris, em função antibritânica - recordemos que a Nigéria é uma ex-colónia britânica – e depois, ainda, houve apoio por parte das nações africanas que tinham governos inspirados no apartheid, como a Rodésia e a África do Sul. É claro que os interesses económicos são os que mais condicionaram grandemente o cenário daquele tempo. Falar da República de Biafra significa falar de "inferno e paraíso" porque, por um lado, é uma parte da Nigéria que realmente flutua no petróleo; por outro lado, naquele tempo, havia uma forte exclusão social, que em alguns aspectos se mantém ainda hoje. Naquela época havia uma elite cultural, que certamente desempenhou um papel importante; por outro lado havia o mal-estar, que é uma constante até nos dias de hoje. O problema de fundo era, e é ainda hoje, o identitarismo, ou seja, o facto de que, dentro destes grandes Estados africanos, desenhados pelas ex-potências coloniais, existe uma multiplicidade de grupos étnicos, autênticos povos, que acham difícil experimentar aquela indispensável integração e que é, portanto, uma necessidade. Perante a existência de uma multiplicidade de grupos étnicos, há sempre um grupo, a etnia da oligarquia dominante, que quer prevalecer sobre as outras".

À pergunta se existe o risco de que as instâncias que causaram a guerra de Biafra, possam explodir ainda hoje numa Nigéria que, aliás, também está enfrentando outros problemas, Padre Albanese respondeu:

"Claro. O problema é certamente ainda o Biafra, porque por baixo daquelas cinzas ainda estão brasas acesas. Nos últimos 50 anos tem havido tentativas secessionistas que, de uma forma ou de outra, o governo central de Abuja tem procurado conter. E depois não esqueçamos que existe o problema do norte da Nigéria: os Boko Haram, esta formação jihadista, extremista, luta contudo para afirmar a autodeterminação das regiões do norte da Nigéria, que são de tradição islâmica".

E nesta Nigéria, o que seria, hoje, o Biafra?

O Biafra continua a ser uma das regiões com grandes potencialidades: tem certamente uma sociedade civil que está levantando  a cabeça, mas eu diria de maneira perspicaz, inteligente. Digamos que nos últimos anos também houve investimentos significativos especialmente do ponto de vista da instrução, mas há sobretudo o empenho de combater a exclusão social ainda que, contudo, a pobreza representa infelizmente um dos grandes paradoxos não apenas do Biafra, mas eu diria da Nigéria em geral. (BS)

31/05/2017 14:54