Ler o artigo Acessar menu principal

Redes Sociais:

RSS:

App:

Rádio Vaticano

A voz do Papa e da Igreja em diálogo com o mundo

outras línguas:

Igreja \ Outros Continentes

Fátima, das visões dos pastorinhos à visão cristã

Fátima, Capa do Livro de D. Carlos Azevedo - RV

26/04/2017 09:38

“Fátima, das visões dos pastorinhos à visão cristã” é o novo livro de Dom Carlos Azevedo, bispo-delegado do Conselho Pontifício para a Cultura. O prelado português apresenta “uma releitura crítica sobre o fenómeno das visões ocorridas na Cova da Iria há 100 anos”, é o que informa a editora Esfera dos Livros que assume a publicação desta obra. Dom Carlos Azevedo, que foi Presidente da Comissão Científica da Documentação Crítica de Fátima entre 1999 e 2008, concedeu uma entrevista ao nosso programa “Sal da Terra, Luz do Mundo”:

P – Porquê a opção pelo conceito de visões e não de aparições?

R – “ No seguimento do que faz Joseph Ratzinger quando escreve o comentário à terceira parte do segredo, que nunca usa a palavra aparição mas usa a palavra visão; no seguimento de Rahner que escreve um livro “Visões e Profecias” que é um clássico na matéria e os teólogos da vida espiritual que preferem por rigor de termo usar a palavra visão. E no caso de Fátima, visões imaginativas que acontecem numa relação mística e numa perceção interior. E isto é fundamental para nós percebermos que há de facto uma realidade, há uma experiência espiritual real mas não física. A presença de Maria agora não é física, ela está gloriosamente no Céu e a sua presença à nossa vida é uma presença espiritual que de algum modo todos os cristãos a vivem, mas em alguns momentos da história, como no caso de Fátima, ela torna-se intensa e torna-se vivida de modo muito profundo lançando uma mensagem em crianças que a acolhem.”

“Portanto, é esse o significado: a palavra visão não tem que ver com alucinação e no livro esclareço em longas páginas sobre todas as distinções claras entre o que é uma visão, que é algo de psicológico, com certeza. Por isso digo que as pessoas comecem a pensar. Ser cristão e falar de Fátima não pode ser com uma linguagem de que quem tem um pouco de sentido crítico possa brincar; tem de ser uma coisa séria, porque quer ter esta seriedade. Com um grande respeito para com a experiência dos pastorinhos, com um grande respeito para com os peregrinos de Fátima, mas percebendo que há uma religiosidade que precisa de ser cristianizada. Foi por isso que Jesus veio à Terra.”

P – Este livro parece trazer uma novidade de análise do processo de comunicação de uma experiência espiritual: ao falar de visões coloca-se na posição de recetor da comunicação, ou seja, como se estivéssemos lado a lado com os pastorinhos. Confirma esta opção?

R – “A experiência que nós temos de Deus é sempre uma experiência pessoal. Nós dizemos o Deus de Isaías, o Deus de Moisés, o Deus de Jesus, o Pai. E nós também: a nossa experiência é uma experiência pessoal de Deus, mas que precisa sempre de ser purificada e essa é a missão da Igreja: de ajudar a chegarmos a esse Deus transcendente que está sempre para além, do que nós conseguimos comunicar. Nós podemos dizer de Deus o que ele não é, mas a Deus nunca ninguém o viu! Aliás isso vem no texto bíblico: ‘a Deus nunca ninguém o viu’, só Jesus é que o deu a conhecer na Sua perfeita imagem do que seria Deus que dá a vida por nós, que é louco de amor por nós, essa verdade do amor total de Deus é que fala de Deus.”

“Portanto, nós no nosso limite nunca conseguimos chegar. Talvez as crianças pela sua simplicidade e abandono sejam mais capazes de chegar lá e esse é o sentido de Fátima e é também a razão da beatificação e de canonização dos pastorinhos: é porque eles são o testemunho de que não é por uma racionalidade que nós nos abeiramos do Mistério, mas precisamos depois de traduzir, em termos que não ofendam a razão, a experiência espiritual que foi tida. Que é uma experiência real, que é uma experiência mística, mas que ultrapassa o nosso entendimento.”

P – Na sua opinião porque é que se manteve ao longo do tempo o conceito de aparições?

R – “Há uma distância muito grande entre teologia e espiritualidade que é culpa dos pastores porque devem ser os mediadores e eu digo também isso no livro: o grande trabalho de um santuário, o grande trabalho dos pastores e dos comunicadores na Igreja é ajudar a encontrar a linguagem que seja o mais rigorosa possível e que transmita um conceito real. Porque quando nós vemos a descrição de tantas visões, mesmo na época que antecedeu, desde as de Lourdes até de La Sallete, que são aquelas que talvez estejam mais na mente de quem depois descreve o que aconteceu na Cova da Iria, descreve um pouco comparando com as visões anteriores, mas contemporaneamente houve outras mas que ficaram esquecidas. Entre a visão e a alucinação, entre a visão e a ilusão há um passo que, às vezes, é curto.”

“Portanto, é preciso fazer todo o estudo que foi feito da autenticidade histórica do ocorrido, dos sinais da vida de quem tem uma experiência espiritual destas que deixa sinais de transformação espiritual, tudo isso ocorre. E que as crianças eram crianças normais não tinham nenhuma patologia, não eram pessoas transtornadas, eram crianças simples com todos os factos que tem uma criança daquela idade. Ora tudo isso deve ser tido em conta porque a experiência de Deus passa pela humanidade. Jesus veio ensinar-nos isso. Mesmo a questão do chamado milagre do sol há uma explicação científica para aquele fenómeno. Ora, que aquele fenómeno tenha ocorrido naquele dia e que os pastorinhos possam ter dito que daqui a um mês vai ocorrer um sinal: isso é que é espantoso. Agora é a natureza, é um fenómeno que pode ocorrer e tem ocorrido de vez em quando e pode repetir-se na natureza. E Deus serve-se da natureza para nos transmitir os sinais, mas que são sempre sinais que podemos questionar. Os sinais são pobres como uma criança tão humilde de uma zona tão ignorada. São sinais muito pobres, mas os sinais de Deus são sempre pobres perante conceções elaboradas. Mas é essa simplicidade de sinais que nos pode tocar o coração e converter, que foi isso também o que aconteceu em Fátima e, sobretudo, lançar uma mensagem que é uma mensagem profética, isto é, que tem incidência na transformação da história.”

P – O contexto político, social e económico do início de século XX em Portugal é determinante no acontecimento espiritual dos três pastorinhos?

R – “Os pastorinhos encarnam, podemos dizer, uma atitude de incompatibilidade que havia entre o Governo e a Nação. O Governo da República estava situado nas zonas urbanas e numa elite e a Nação estava do outro lado, continuava católica e até quase monárquica. Portanto, havia aqui uma insatisfação. A guerra veio somar. Os bispos escrevem uma carta pastoral em janeiro de 17 (1917) onde dizem em determinada altura que nem um milagre espetacular salva-nos deste mal em que nós vivemos, deste contexto de crise, de todas estes problemas e fazem um apelo enorme aos católicos dizendo: impliquem-se na vida política, é preciso o compromisso dos cristãos. Criou-se o Centro Católico nesse ano que era um pouco a linha dos valores que a Igreja defendia estavam ali nos deputados do Centro Católico. Mas que nunca conseguiram crescer até à sua extinção porque os católicos estavam divididos.”

“É, fundamental, nós percebermos que aquelas crianças, no fundo, acolheram uma mensagem que correspondeu a uma aspiração. Daí que é espantoso que as próprias vias de acesso a Fátima, que era uma terra desconhecida, em meio ano, de maio a outubro, reúnem 40 a 50 mil pessoas em outubro. Havia um somar de falta de respeito para com a religiosidade do povo que acabou por fazê-la trazer ao de cima.”

P – Que visão de Deus nos apresenta a Mensagem de Fátima?

R – “É um Deus que está atento aos sofrimentos da humanidade, é um Deus que é misericordioso. E que por isso se torna presente com sinais que foram os sinais da presença materna de Deus através da presença de Maria, a Mãe de Jesus. E é essa a capacidade profética e o carisma profético que aquelas crianças tiveram. E nós queixamo-nos que hoje na Igreja falta profecia e aquelas crianças foram capazes de acolher o olhar de Deus e projetá-lo sobre a História dizendo: se vós não mudais de vida vai acontecer uma guerra ainda pior. E aconteceu a Segunda Guerra. Isto é, certamente, um pouco aquilo que o Papa Francisco também virá dizer: se vós não mudais a economia, se vós não mudais a política, o mundo vai mal.”

“No fundo, é esta mensagem profética de que Deus tem uma implicação na História; que Deus tem uma implicação na vida e que o facto de ser crente implica transformar a realidade em que vivemos. É este dinamismo de conversão. O atender ao olhar de Deus, uma dimensão contemplativa e orante: o rezar o terço e todas as expressões de acolher o que Deus quer para depois transformar a História. A grande mensagem que Fátima nos traz é dizer que nós somos responsáveis pelo mal, somos responsáveis pelo mal da humanidade e não podemos banalizar o mal, como diz Dom António Marto, mas temos que levá-lo a sério e que somos responsáveis. Cada um de nós tem o seu grau de responsabilidade. Por isso temos que nos converter, cada um no seu campo e na própria implicação na transformação da História. E esta é uma grande mensagem.”

Era Dom Carlos Azevedo, bispo português, delegado do Conselho Pontifício para a Cultura falando a propósito do seu livro: “Fátima, das visões dos pastorinhos à visão cristã”. O Papa Francisco visita Fátima nos próximos dias 12 e 13 de maio.

“Sal da Terra Luz do Mundo” é aqui na Rádio Vaticano em língua portuguesa.

(RS)

26/04/2017 09:38