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Francisco, 4 anos: o comentário do Cardeal Pietro Parolin

Papa Francisco e o Cardeal Secretário de Estado Pietro Parolin - ANSA

31/03/2017 13:03

Foi no passado dia 13 de março que o Papa Francisco completou o quarto aniversário da sua eleição para a Cátedra de Pedro. Quatro anos intensos marcados por sinais importantes de renovação pastoral da Igreja. A este propósito publicamos neste “Sal da Terra, Luz do Mundo” o comentário do Secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Pietro Parolin.

O quarto ano do pontificado de Francisco foi pleno de acontecimentos de grande relevo para o papel da Igreja no Mundo. Desde logo, o Jubileu Extraordinário da Misericórdia, mas também o abraço ao Patriarca Kirill em Cuba, a JMJ em Cracóvia, a visita ao campo de concentração de Auschwitz, a canonização de Madre Teresa de Calcutá e a viagem ecuménica a Lund, na Suécia nos 500 anos da Reforma Protestante. Foi também neste ano que Francisco publicou um significativo documento do seu magistério: a Exortação Apostólica “Amoris Laetitia” sobre a família.

Para uma reflexão sobre os temas fortes destes primeiros quatro ano de pontificado e sobre o horizonte que o Papa Francisco está a abrir na vida da Igreja, o Secretário de Estado, Cardeal Pietro Parolin, concedeu uma entrevista à Rádio Vaticano – Secretaria para a Comunicação. Foram estas em síntese as suas palavras numa entrevista conduzida pelo jornalista italiano Alessandro Gisotti:

“No dia 13 de março de 2013, eu não estava em Roma, estava ainda em Caracas, como Núncio Apostólico na Venezuela. Recebemos lá a notícia ao meio-dia. O primeiro sentimento foi de surpresa por este nome, pela eleição do Cardeal Bergoglio de quem ouvi falar, mas não se previa naquele momento que seria o novo Papa, pelo menos a imprensa não o apresentava entre os papáveis. Portanto, uma grande surpresa e uma surpresa também em relação ao nome. O nome Francisco não constava na série dos Papas e prefigurava quais seriam as características do novo Pontífice. Tocou-me o seu discurso feito com muita simplicidade, muita paz e serenidade. Esta confiança recíproca, o facto de que ele se tenha confiado ao povo, pedindo-lhe orações para que Deus o abençoasse, “o povo santo de Deus”, como ama dizer o Papa Francisco. Portanto, o confiar do pastor ao povo, do povo ao pastor e todos juntos a Deus. Dali saiu esta imagem de Igreja que é um caminhar juntos, pastor e povo, com confiança e confiando-se todos à oração, graça e misericórdia do Senhor.” 

“Evidentemente, é um caminho longo, um caminho progressivo, um caminho que teve o seu início com o Concílio Vaticano II e que o Papa Francisco quer continuar a sua aplicação na vida da Igreja. Parece-me importante esta Igreja a caminho, esta Igreja que se abre: uma Igreja que se abre sobretudo ao Senhor, uma Igreja em saída em direção ao seu Senhor, rumo a Jesus Cristo. Precisamente, porque a Igreja em saída rumo a Jesus Cristo consegue também acompanhar as pessoas, encontrar as pessoas, acompanhar as pessoas na sua realidade quotidiana. Isso parece-me muito importante e acredito que este caminho deve ser feito juntos. Eis a sinodalidade! A Igreja em caminho deve ser feita juntos, sob a guia do Espírito Santo. Portanto, uma Igreja reunida pelo Espírito onde cada um está atento à voz do Espírito e onde cada um coloca em comum também os dons que o Espírito Santo lhe dá para a realização desta missão.“

“… esta insistência sobre a misericórdia não é tanto um gosto pessoal do Papa mas é central no Mistério fundamental que é aquele do amor de Deus. A história da salvação não é outra coisa que não a história da revelação do amor, da misericórdia e da ternura de Deus perante a humanidade. E o Papa chama-nos para este centro e esta fonte. Creio que o esforço da Igreja deva ser aquele de fazer-se ligação, de fazer-se canal deste encontro entre a misericórdia de Deus e o homem de hoje na sua realidade concreta, nas suas alegrias e nas suas dores, nas suas seguranças e também nas suas debilidades e nas suas dúvidas. O Ano Santo da Misericórdia foi precisamente uma oferta que o Papa fez à Igreja para que se tornasse este instrumento de misericórdia. Justamente, como ele disse, fecha-se a Porta Santa mas a porta da misericórdia permanece sempre aberta!”

“Naquilo que diz respeito aos frutos gostaria de sublinhar duas coisas: a primeira é, da parte de muitos cristãos e de muitos batizados, a redescoberta da Confissão como Sacramento da misericórdia de Deus onde o Senhor Jesus nos faz experimentar a misericórdia do Pai, o perdão dos pecados e todo o seu amor perante nós. Ouvi por parte de tantos que houve um despertar deste Sacramento e tantas pessoas aproximaram-se. Esperemos que este despertar continue a traduzir-se verdadeiramente numa renovada frequência do Sacramento da Reconciliação.”

“E depois a atenção às situações de pobreza, de indigência. O Papa mostrou-nos, sobretudo com os gestos, este exercício da misericórdia que é um dos requisitos que nos é feito na Quaresma: a conversão nasce precisamente do exercício das obras da caridade fraterna. E, portanto, esta renovada atenção às pessoas que se encontram em dificuldades, aos pobres, aos marginalizados, àqueles que têm necessidade de apoio e de proximidade. Parece-me que foram tantíssimas as iniciativas. Creio que esta seja também uma dimensão sobre a qual se deverá continuar e insistir.”

“ Eu direi, antes de mais, para olharmos a ‘Amoris Laetitia’ como um grande presente que nos foi dado. O Papa recordo-me que dizia no início do primeiro Sínodo: ‘Este Sínodo deverá fazer brilhar o Evangelho da família’. E o Evangelho da família quer dizer de um lado o plano de Deus sobre a família, aquele plano que Deus tinha concebido desde a eternidade sobre a família e, ao mesmo tempo, as condições reais nas quais esta família vive: uma família marcada pelo pecado original como toda a realidade humana. Por conseguinte, eu creio que a ‘Amoris Laetitia’ deu um grande impulso, está a dar um grande impulso, como sinto de tantas pessoas, à pastoral familiar. Está verdadeiramente a produzir frutos de renovação e de acompanhamento das situações familiares que se encontram na fragilidade. No que diz respeito às críticas… na Igreja sempre houve críticas! Não é a primeira vez. Creio que o próprio Papa deu-nos a chave para lê-las, ou seja, devem ser críticas sinceras que queiram construir e que, assim, sirvam para progredir e para encontrar em conjunto a maneira sempre melhor de conhecer a vontade de Deus e de aplica-la.”

“Na história, o Concílio depois retomou, a Igreja é ‘semper reformanda!’ É uma dimensão fundamental da Igreja a de estar em processo de reforma, de ‘conversão’, para usar o termo evangélico. É justo que seja assim. É necessário que seja assim. O Papa recorda isso com insistência para que a Igreja se torne cada vez mais si mesma, se torne cada vez mais autêntica, tire as crostas que se acumularam no caminho da história e resplandeça realmente com a transparência do Evangelho. Este é fundamentalmente o sentido da reforma. É por isso que o Papa insiste na ‘reforma do coração’! No âmbito da Cúria Romana houve várias decisões. O Papa recordou no último discurso à Cúria Romana que estas reformas estão a causar transformações, uma renovação. Porém, tudo parte do coração, tudo parte de dentro. E o Papa insiste nisso. É importante, como ele mesmo diz, insistindo na reforma do coração: “não são os critérios funcionais que devem guiar esta reforma, mas os critérios de um regresso autêntico a Deus e uma manifestação autêntica da natureza verdadeira da Igreja.” 

“Sal da Terra, Luz do Mundo” é aqui na Rádio Vaticano em língua portuguesa.

(RS)

31/03/2017 13:03