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Nicolau do Rosário, "Partigiano", Herói em Itália e Cabo Verde

O Embaixador de Cabo Verde, Manuel Amante, intervindo na apresentação do livro, e a página com a foto de Nicolau do Rosário - RV

10/03/2017 19:08

 

Foram numerosos os africanos mortos em campos de batalha para libertar a Europa do nazi-fascismo durante a Segunda Guerra Mundial. Mas até hoje a heroicidade desses homens não foi devidamente reconhecida e valorizada.

Quinta-feira, 9 de Março, em Roma, viveu-se um momento que recorda essa página da história da Europa, do mundo. Numa pequena sala  da Câmara dos Deputados foi apresentado o livro (em italiano)  “A 59ª Brigada Garibaldina de Manovra “CAIO” e Memórias “Partigiane” da VI Zona Operativa”. O autor do livro é o genovês, Bruno Garaventa, que dedica algumas páginas a Nicolau do Rosário, caboverdiano tombado em Génova à cabeça de um grupo de “Partigiani” ou seja de resistência contra soldados do Exercito nazista alemão.

Uma placa no Hospital Galliera de Génova recorda o feito de Nicolau. Mais de 70 anos depois da sua morte, a placa, já quase ilegível, foi renovada em Abril de 2016 pela Embaixada de Cabo Verde em Itália.

Mas, como chegou, Bruno Garaventa, a descobrir a figura de Nicolau do Rosário ou Nicola como se lê na placa?

Foi um pouco por acaso, porque alguém, já nem me recordo quem, telefonou-me perguntando se sabia alguma coisa dessa pessoa. Eu há anos que estou a pesquisar sobre os factos da Resistência na área que se chamava “6ª Zona Operativa da Ligúria” e encontrei uma pequena documentação – pois que naqueles tempos a documentação (fotos e outras coisas eram proibidas porque podiam constituir um perigo) e descobri que essa pessoa tinha combatido juntamente com a Brigada que agia no seio e na área circunstante do Porto de Génova: o antigo Porto que tinha sido minado pelos alemães para fazer com que – em caso de retirada - saltasse para o ar, tornando-se, desse modo, inacessível a uma eventual entrada dos americanos ou de outras forças aliadas. E esse Nicola do Rosário combateu nos últimos dias da batalha de insurreição de Génova; combateu na zona mais quente que havia, e com ele, no mesmo dia, morreram outros quatro “Partigiani” e onze ficaram feridos – estou a falar daqueles do seu grupo, porque naqueles dias morreram centenas, mas do seu grupo, que se chamava “SAP Belluci 863”  [ou CAIO], morreram esses  quatro no mesmo dia e onze ficaram feridos. Ele foi morto mais ou menos às 12 horas do dia 24 de Abril de 1945 enquanto estava a combater contra um grupo de alemães que estavam numa barricada no Hospital Galliera em Génova. Ele foi antes atingido com um golpe de baioneta, mas continuou a combater e a incitar os companheiros a combaterem contra os alemães que tinham uma metralha montada numa “machine Gewehr” e deram-lhe uma rajada de metralha e ele morreu quase instantaneamente".Mas é graças a toda essa gente que hoje em Itália somos um país livre, um país com democracia. E ele tinha compreendido que naquele momento havia que dar um grande contributo ao povo italiano, à nossa Constituição, à nossa liberdade”.

Bruno Garaventa dedica-se, como ele próprio dizia – desde há anos ao estudo da valorosa acção dos “Partigiani” (ou seja dos grupos de resistência) na região italiana da Ligúria, cujo principal centro urbano é a Cidade portuária de Génova. E Nicolau do Rosário não podia imaginar que mais de 70 anos depois da sua morte em combate, seria esse italiano casado, há décadas, com uma cabo-verdiana a contribuir para a recordação da sua figura – disse o Embaixador de Cabo Verde em Itália, Manuel Amante da Rosa , na sua intervenção - uma mensagem carregada de sentimentos:

Voltando a Nicolau do Rosário, não se sabe ao certo porque se encontrava em Génova. A hipótese lançada pelo Embaixador é que teria vindo nalgum navio que transportava cereais e que terá passado por Cabo Verde com destino a Génova, onde ele terá ficado a trabalhar… O próprio Bruno Garaventa diz não ter conseguido informações sobre esse aspecto…

Não consegui, mas ele habitava ali perto, naquela zona, porque quase todos aqueles “Partigiani” eram gente local porque os SAP [Squadra di Azione Patriottica, (Esquadra de Acção Patriótica)] nasciam em certas zonas e formavam equipas patrióticas. E, provavelmente, ele morava numa zona ali perto, aliás, no livro há mesmo o endereço onde ele morava. E, provavelmente, os dirigentes daquele tempo tinham proposto ao Ministério a atribuição de alguma medalha de reconhecimento, mas dado que ele já não estava, terá ficado nos arquivos. Mas, há documento assinado pelo Coronel que comandava a Praça de Génova e do Comandante de todos os SAP"…

E há também essa placa no Hospital Gallieri de Génova!

Essa placa que está ali e que foi renovada o ano passado recorda a sua figura; o seu corpo está sepultado no Cemitério do Staglieno, onde há uma área expressamente reservada a todos os tombados pela liberdade da Pátria. É um campo perene que permanecerá como facto histórico em memória dessas pessoas”.

Bruno Garaventa, autor do livro sobre os “Partigiani” da Região italiana da Ligúria, onde o caboverdiano, Nicolau do Rosário, tombou pela libertação da Itália do nazi-fascismo. Foi a 24 de Abril de 1945. Os “Partigiani”, recordamos, eram grupos de “Resistência” armada que não pertenciam a nenhum exército oficial. Nicolau do Rosário tinha então, 51 anos de idade. Já tinha, portanto, maturidade suficiente para ter consciência do gesto que fazia pela Itália – disse o Embaixador, Manuel Amante.

(DA)

10/03/2017 19:08