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A Palavra e o outro: dons para a Quaresma

A "Palavra" feita dom para a humanidade - RV

16/02/2017 12:28

Nesta nossa rubrica “Sal da Terra, Luz do Mundo” analisamos a Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma deste ano de 2017 com o título: “A Palavra é um dom. O outro é um dom”.

Publicada na terça-feira dia 7 de fevereiro, Francisco afirma na sua Mensagem que o tempo quaresmal “não cessa de nos dirigir um forte convite à conversão” para crescer “na amizade do Senhor”. “Jesus é o amigo fiel que nunca nos abandona” – escreve o Santo Padre que sublinha a Quaresma como o “momento favorável para intensificarmos a vida espiritual” convidando os cristãos “a ouvir e meditar com maior assiduidade” a Palavra de Deus.

O outro é um dom, um rosto e uma riqueza

Na sua Mensagem o Papa reflete sobre a parábola do homem rico e do pobre Lázaro relatada no Evangelho de S. Lucas. O pobre está desesperado – diz Francisco – e tem “esperança de comer as migalhas que caem da mesa” do homem rico.

Segundo o Santo Padre o pobre homem que tem “o corpo coberto de chagas” tem, contudo, um nome: Lázaro, que significa ‘Deus ajuda’.

O Papa realça nesta Mensagem quaresmal que Lázaro aos olhos do homem rico é como que invisível, mas para nós “aparece como um ser conhecido e quase de família, torna-se um rosto; e, como tal, é um dom, uma riqueza inestimável, um ser querido, amado, recordado por Deus”.

“Lázaro ensina-nos que o outro é um dom” – assinala Francisco – e “a Quaresma é um tempo propício para abrir a porta a cada necessitado e nele reconhecer o rosto de Cristo”. “A Palavra de Deus ajuda-nos a abrir os olhos para acolher a vida e amá-la, sobretudo quando é frágil” – afirma o Papa.

A cegueira do pecado

Francisco refere na sua Mensagem que o homem rico vive em “contradições” e “ao contrário do pobre Lázaro, não tem um nome”. A sua riqueza é “excessiva” feita de “opulência”.

O Papa afirma que é possível entrever-se no homem rico “a corrupção do pecado, que se realiza em três momentos sucessivos: o amor ao dinheiro, a vaidade e a soberba”. O dinheiro que podia ser um “instrumento ao nosso dispor para fazer o bem e exercer a solidariedade” pode subjugar-nos “numa lógica egoísta que não deixa espaço ao amor”.

O Santo Padre escreve que a parábola “mostra-nos que a ganância do rico fá-lo vaidoso. A sua personalidade vive de aparências”. Mas num degrau ainda “mais baixo desta deterioração moral” está patente a “soberba”.

Este homem rico “veste-se como se fosse um rei” e vive “uma espécie de cegueira” esquecendo-se que é “um simples mortal”. Apegado ao dinheiro “o rico não vê o pobre esfomeado, chagado e prostrado na sua humilhação” – diz Francisco citando S. Mateus: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro”.

A Palavra de Deus é dom e força viva

A parte principal da parábola de S. Lucas “desenrola-se no Além” – diz-nos o Papa – “onde o rico tece um longo diálogo com Abraão”. Só no meio dos tormentos do Além é que o rico reconhece Lázaro e queria que o pobre aliviasse os seus sofrimentos com um pouco de água. “Os gestos solicitados a Lázaro são semelhantes aos que o rico poderia ter feito, mas nunca fez” – assinala Francisco.

No entanto, Abraão explica ao homem rico que ele recebeu os seus “bens na vida” e Lázaro “somente males”. Mas, Lázaro agora é “consolado” enquanto o homem rico está “atormentado”. “No Além, restabelece-se uma certa equidade” – refere o Santo Padre.

Na parábola o homem rico que tem ainda “irmãos vivos, pede a Abraão que mande Lázaro avisá-los”, mas Abraão diz-lhe que eles devem ouvir a Palavra de Deus através de Moisés e dos Profetas. Eis o “verdadeiro problema do rico” – afirma Francisco – não dá ouvidos à “Palavra de Deus” algo que o levou a “deixar de amar a Deus e, consequentemente, a desprezar o próximo”.

“A Palavra de Deus é uma força viva, capaz de suscitar a conversão no coração dos homens e orientar de novo a pessoa para Deus. Fechar o coração ao dom de Deus que fala, tem como consequência fechar o coração ao dom do irmão” – declara o Papa.

O Papa Francisco termina a sua Mensagem para a Quaresma deste ano de 2017 afirmando que é este o “tempo favorável para nos renovarmos, encontrando Cristo vivo na sua Palavra, nos Sacramentos e no próximo”.

Na apresentação da Mensagem do Papa para a Quaresma, na terça-feira dia 7 de fevereiro, estiveram presentes na Sala de Imprensa da Santa Sé o Mons. Giovanni Pietro Dal Toso, secretário delegado do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral e Chiara Amirante, fundadora da Comunidade “Novos Horizontes”. Comecemos pelas declarações do Mons. Dal Toso à Rádio Vaticano:

“O Papa no fundo mete o dedo numa questão fundamental para cada homem e creio em particular para o cristão: quanto o homem sabe abrir-se, porque do abrir-se vem-lhe a vida e do fechar-se vem a morte. Esta é uma mensagem que quer convidar todos, em particular, os cristãos, evidentemente, a abrir o seu coração. O Papa diz que a raiz dos males do rico é o seu não escutar a Palavra de Deus: portanto, é um esclarecimento muito claro. Quanto mais o homem pode abrir-se à ação de Deus, quanto mais torna-se sensível às pessoas que estão próximas. Esta é uma mensagem muito forte: escutar Deus significa também escutar o homem. Reconhecer que no outro não há perigo, que não tem que ter medo, mas que o outro é um dom, algo que me enriquece é sobretudo o reconhecimento de uma grande experiência humana. Cada um de nós vive somente graças a outras relações humanas. Nós podemos ser nós mesmos apenas graças a pessoas que constantemente, no decorrer da nossa vida, nos enriquecem; mesmo aquelas que nos desafiam são na realidade uma ajuda para amadurecer. E, portanto, poder individualizar isto, poder ver o outro não como um perigo, uma ameaça, uma limitação, mas a alteridade de que eu tenho necessidade para ser: penso que esta é uma mensagem importante que podemos fazer nossa e que, aliás, devemos fazer nossa.”

Chiara Amirante, fundadora da Comunidade “Novos Horizontes”, participou também nesta apresentação da Mensagem do Papa para a Quaresma e prestou declarações à Rádio Vaticano propondo uma reflexão radicada na sua forte experiência no serviço aos últimos, sublinhando o quanto a Palavra de Deus e o outro são um dom:

“A Mensagem sublinha que fecharmo-nos ao dom da Palavra de Deus cega-nos e fecha o coração ao dom do outro. É natural e é humano ter temor do irmão que vive situações de dificuldade, porque, como diz o Papa Francisco na Mensagem, muitas vezes isto parece que nos incomode, enquanto na realidade nos chama a mudar de vida. O problema é que este desafio, mesmo ficando apenas no tema da imigração, é um desafio de tal modo urgente que, certamente, não o resolvemos com os muros. Porque não há um muro que possa parar um desesperado! É preciso absolutamente unir-se para encontrar soluções diferentes.”

“O verdadeiro problema é que esquecemos o coração da mensagem de Cristo: ‘Dou-vos um mandamento novo: amai-vos como eu vos amei!’. E deu-nos isto como segredo para a plenitude da alegria. Se não nos deixamos meter em crise por esta mensagem, que é um mandamento e, portanto, não é um opcional para nós cristãos, e não tomamos a sério o nosso cristianismo, então não é cristianismo: é outra coisa! O amor revolucionário que muda o mundo não é decerto a moedinha que dou para lavar-me a consciência, mas é isto ‘Amai-vos como eu vos amei’ que fez das primeiras comunidades dos cristãos uma revolução até social.”

 “Sal da Terra, Luz do Mundo”, é aqui na Rádio Vaticano em língua portuguesa.

(RS)

16/02/2017 12:28