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Papa ao jornal belga: laicidade sadia é aberta à transcendência

"Mundo precisa da revolução da ternura ..." - AFP

07/12/2016 13:21

Os frutos do Jubileu da Misericórdia, a laicidade, os desafios para os jovens e para a Europa: estes são alguns dos temas comentados por Francisco numa entrevista concedida ao semanal católico belga "Tertio", publicado esta quarta-feira (07/12).

Laicidade saudável

O Papa observa que um Estado laico é melhor do que um Estado confessional. Todavia, não é saudável o laicismo que “fecha as portas à transcendência”, trata-se de uma “herança que o Iluminismo nos deixou”. Para Francisco, a abertura à transcendência faz parte da essência humana, e quando um sistema político ignora esta dimensão, descarta a pessoa humana.

Não se pode fazer guerra em nome de Deus

O Papa responde a uma pergunta sobre as guerras e o fundamentalismo religioso. Antes de tudo, defende que “nenhuma religião como tal pode fomentar a guerra”, porque – neste caso – estaria “proclamando um deus de destruição, um deus de ódio”. “Não se pode fazer a guerra em nome de Deus”, “em nome de nenhuma religião”. Por isso, “o terrorismo e a guerra não se relacionam com a religião”. O que acontece é que “usam deformações religiosas para justificá-las”. O Pontífice reconhece que “todas as religiões têm grupos fundamentalistas. Todas. Inclusive nós”. Esses pequenos grupos, acrescenta, “adoeceram a própria religião” e “dividem a comunidade, o que é uma forma de guerra”.

Líderes europeus

Na entrevista, Francisco fala também do continente europeu e ressalta que, mesmo passados 100 anos da I Guerra Mundial, “estamos sempre num estado de conflito mundial, em pedaços”. Dizemos com a boca “nunca mais a guerra”, “mas enquanto isso fabricamos armas e as vendemos para quem combate em nome dos interesses dos fabricantes de armas. O preço é muito alto: o sangue”. Francisco considera que hoje faltam líderes verdadeiros na Europa, como Schumann, De Gasperi e Adenauer, que lutaram contra a guerra. “A Europa necessita de líderes, líderes que olhem para frente”.

Jubileu da Misericórdia, uma ideia inspirada pelo Senhor

Uma parte importante da entrevista é dedicada ao Jubileu da Misericórdia. O Papa revela que a ideia não surgiu imediatamente, mas se inspirou de modo especial na acção do Beato Paulo VI e de S. João Paulo II. A convocação de um Ano Santo extraordinário nasceu de uma conversa com Dom Rino Fisichella, presidente do dicastério para a Nova Evangelização. Foi uma ideia que veio do “alto”, “creio que o Senhor a inspirou”. Um evento, prossegue, que “evidentemente foi muito bem”. E destaca que “criou muito movimento” por ter se realizado em todo o mundo, e não só em Roma. “Tantas pessoas se sentiram chamadas a se reconciliarem com Deus, a sentirem o carinho do Pai”.

Sinodalidade

Outro tema foi a sinodalidade, em que Francisco recorda que a Igreja nasce da comunidade, da base. Portanto, ou existe uma Igreja piramidal, onde se faz o que diz Pedro, ou uma Igreja sinodal, em que Pedro é Pedro, mas acompanha a Igreja. “A experiência mais rica disso tudo foram os últimos dois Sínodos”, aponta o Papa. Para ele, “é interessante a riqueza da variedade de tons, que é própria da Igreja. É unidade na diversidade”. Nos Sínodos, cada um disse o que pensava “sem medo de se sentir julgado”, “todos tinham a atitude de escuta, sem condenar”. Houve uma discussão “como irmãos”. “Houve uma liberdade de expressão muito grande” e “isso é belo”. “Pedro garante a unidade da Igreja” e é preciso “progredir na sinodalidade”, defende Francisco. E aos jovens recordou a experiência da JMJ de Cracóvia, pedindo a eles que não tenham vergonha da fé, que busquem novos caminhos e “não se aposentarem aos 20 anos.”.

Media e desinformação

O Papa faz também uma reflexão sobre os meios de comunicação, destacando que os media “tem uma responsabilidade muito grande”, pois podem formar “uma boa ou uma má opinião”, “podem construir”, “fazem um bem imenso”. Todavia, podem fazer danos através da “tentação da calúnia”, para “sujar as pessoas” e difamá-las. A desinformação, adverte, é o maior mal que os media podem fazer, “porque orientam a opinião pública numa direcção, deixando a outra parte da verdade”. Francisco pede ainda transparência e limpidez na cobertura, sem cair na “doença da coprofilia”, isto é, comunicar o escândalo, “coisas ruins”, porque assim podem provocar danos.

Sacerdotes e ternura

O último pensamento do Papa é direccionado aos sacerdotes, aos quais pede que amem sempre Nossa Senhora, que jamais se sintam órfãos, que se deixem guiar por Jesus e busquem sua carne sofredora nos irmãos. E exortou: “Não tenham vergonha da ternura. Hoje se necessita de uma revolução da ternura neste mundo que sofre de cardiosclerose”.

07/12/2016 13:21