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"Obrigada por se recordar de nós" - Prisioneira mexicana ao Papa

Edila Quintana Molina discursando para o Papa - OSS_ROM

21/02/2016 18:55

Na nossa rubrica sobre as mulheres da África, mas com uma janela aberta para o mundo, vamos retomar hoje o encontro do Papa com os prisioneiros do Centro estatal de Readaptação Social (CeReSo 3) na Cidade de Juárez, onde o Papa Francisco foi saudado, em nome de todos, pela prisioneira Edila Quintana Molina, a qual fez um discurso que emocionou a todos quantos a ouviam também através dos meios de comunicação social. Um discurso em que ela agradeceu ao Papa por se ter lembrado deles, evocou as razões profundas que os levaram à prisão, o que fazem, a importância do afecto familiar nessas situações e, sobretudo, a fé como perno da esperança para ultrapassar esta que deve ser apenas – disse - uma fase das suas vidas.

E neste Ano da Misericórdia que nos recorda que uma das principais obras de misericórdia corporais que Deus nos recomenda é visitar os presos, Edila Quintana Molina, disse ao Papa:

A sua presença neste Centro é um chamamento à Obra da misericórdia em relação aos presos e às suas famílias. É também um convite para aqueles que se esqueceram de que aqui há seres humanos, pois, embora sejamos transgressores da lei do homem, e pecadores, a maior parte de nós tem a esperança na redenção. E, nalguns casos, a vontade de a obter.”

Edila explicou depois que a experiência da cadeia, põe à prova a fé e a força de espírito duma pessoa, pois é um lugar onde não importa quem eras na sociedade, um lugar onde o companheiro de cela se torna a tua família, onde te sentas à mesa com estranhos, e onde todos são iguais, antes de mais pelo uniforme, como também são iguais perante os olhos de Deus.

Esta experiência nos vai transformando. No início desta viagem chamada prisão, nos sentimos expostos, vulneráveis, sós. Física e emocionalmente, parte de nós já se foi, e é no nosso âmago, onde temos de encontrar a força para encarar e ou viver esta experiência. Neste mundo cinzento, onde todos os dias parecem ser iguais e onde uma pessoa não sonha o seu presente, os nossos planos para o futuro se convertem em incertezas.”

No entanto - continuou Edila Quintana Molina - há que reunir as forças e aventurar-se pela mudança de rumo da própria vida, há que levantar-se, por exemplo, e tornar teu companheiro, um livro que te faz viajar através das suas páginas. Edila ilustrou depois as actividades que desempenham nesse Centro prisional, onde as actividades religiosas constituem um elemento essencial de preparação para a reinserção social, e se convertem num espaço de reflexão e consciência da “magnitude dos nossos actos” – disse, alegrando-se por terem actividades religiosas:

Hoje nos alegramos, porque as condições actuais do nosso Centro permitem que tenhamos acesso a actividades religiosas num ambiente em que não nos discriminam por as praticarmos, mas nos encorajam, pelo contrário, a segui-las”.

Edila Quintana Molina fala ainda dos cursos práticos que têm para – disse – “não voltarem a ser vítimas da ignorância” e melhorarem a maneira como vêm o que os rodeia e aprenderem uma profissão que lhes permita “enfrentar um dia a liberdade com dignidade”, pois considera que nem tudo termina entre essas quatro paredes da prisão:

Isto é só uma pausa. É um tempo de reflexão sobre como queremos viver e como anelamos que os nossos filhos vivam. Trabalhamos para fazer com que os nossos filhos e filhas não repitam a nossa história”.

Esta jovem mulher mexicana que chamou a atenção pela energia com que pronunciou as palavras dirigidas, em nome dos seus companheiros de prisão – três mil homens e duzentas mulheres – ao Santo Padre, não deixou de fazer uma referência à sua vivência pessoal nesse centro prisional de recuperação social:

No plano pessoal, a grande bênção de ver crescer a minha filha e vê-la transformar-se numa grande menina bonita de cabelos compridos, com esses olhos enormes que consigo ver quando se abre a porta da prisão para ela passar, o seu sorriso, e vê-la acorrer aos meus braços, me dão um pouco de vida. Um “te amo mamã” saído dos seus belos lábios me dão a força com que sobrevivo nos dias seguintes na prisão.”

E depois das actividades que conseguem fazer na prisão, actividades religiosas, cursos, e dessa bênção que representa para si a visita da filha, Edila Quintana Molinas falou da fé e do desejo de mudar…

Se a vida e os nossos actos nos puseram na obscuridade, talvez não seja para morrer nela. É para que a iluminemos com a nossa fé e a nossa ânsia de mudar. Assim, para muitos de nós, a palavra de Deus já nos fez compreender que a nossa prisão espiritual foi construída por nós próprios, pelos nossos vícios, pelas nossas paixões e males causados. Esta experiência nos torna em seres pacientes e perseverantes. Estas duas grandes virtudes nos tornam excepcionais. Vamos usá-las a nosso favor.”

E como que a exortar os seus companheiros de prisão a uma vida melhor, Edila fala no conjuntivo:

Trabalhemos em nós próprios para que o nosso futuro se converta em projectos para as nossas vidas. Fortaleçamos o nosso espírito para que onde quer que nos deslocamos levemos o amor. Desta forma chegaremos a Deus, pois Deus é amor”.

Edila contou ainda que no dia da sua sentença, alguém lhe disse: agora não te perguntes “porque estás aqui, mas para quê estás aqui”. E neste pano de fundo, recorda que um dia se sentia triste, longe de casa, sem a sua filha, sem a família e do fundo dos seus botões pensou:

 “Aceito a tua vontade Senhor e disse-lhe: Senhor, peço-te apenas para me fazeres compreender que os teus planos são melhores que os meus. E foi então que encontrei a resposta “para quê estou aqui” .

Considerando depois que o único mérito que tinha para dirigir a palavra, em nome dos seus numerosos companheiros de prisão, ao Papa, era esse uniforme de prisioneira que trazia, Edila disse estar segura de que essa visita do Papa ficará na história:

Estou segura de que a sua visita será histórica, pois a visita que recebe um preso se converte em alimento que nos nutre de fé e esperança de que poderemos regressar em breve para casa e reencontrar-nos com os nossos entes queridos”

Para Edile e os seus companheiros e companheiras de prisão a visita do Papa ao México, ao Estado de Chihuahua e à Cidade de Juárez é uma bênção. E agradece:

Santo Padre, queremos agradecer-lhe por nos ter tomado em consideração e por trazer-nos a ternura e a carícia de Deus aqui onde estamos reclusos. Nós que clamamos pelo perdão de Deus e da sociedade, porque também somos parte dela e por conseguinte do povo de Deus”.

Quintana Molina cita as palavras do Evangelho para dizer que esse Papa que fala a língua deles se fez prisioneiro como eles ao visitá-los:

… Hoje, sua Santidade fez-se um de nós, na prisão, ao fazer próprias as palavras da Sagrada Escritura, do Apóstolo Paulo aos hebreus que diz literalmente: “Recordai-vos dos presos como se estivésseis presos com eles”.

E mais uma vez Edila agradece ao Papa:

Obrigada por recordar-se de nós, pela sua sensatez, pela sua humildade. Sei que você mais do que ninguém nos compreende. Lhe pedimos que tenha em conta os nossos pedidos de oração pelas nossas famílias que são vítimas de agressões devido aos nossos actos e também pelas vítimas dos nossos actos, pois, todos necessitamos da presença de Deus nas nossas vidas para que a sua misericórdia não nos abandone” .

Edila concluiu dizendo ao Papa para ter a certeza de que deixou em cada um deles a semente da esperança e garantiu-lhe a oração de todos os presos do México. E rematou com estas palavras:

“Bendito sejam os pés que vêm em nome de Deus”.

(DA)

 

 

 

21/02/2016 18:55